Domingo, 9 de Setembro de 2012

Nas horas que me pertencem

«Toutefois, si l'on évoque José Saramago, Tabucchi prend un air absent et détourne le regard. Manifestement, c'est vers une autre littérature que ses affinités le dririgent.» (...)Antonio Tabucchi não me perdoará nunca ter escrito O Ano da Morte de Ricardo Reis. Herdeiro, ele, como faz questão de se mostrar, de Pessoa, tanto no físico quanto no mental, viu aparecer nas mãos de outrém aquilo que teria sido a coroa da sua vida, se e tivesse lembrado a horas e tivesse a vontade necessária:  narrar, em verdadeiro romance, o regresso e a morte de Ricardo Reis, ser Reis e ser Pessoa, por um tempo, humildemente - e depois retirar-se, porque o mundo é vasto de mais para andarmos cá a contar sempre as mesmas histórias. (pp.22-23)

 

Como será possível acreditar num Deus criador no Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, a existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus. (p. 26)

 

(...) Chegado agora a estes dias, os meus e os do mundo, vejo-me diante de duas probabilidades: ou a razão, no homem, não faz senão dormir e engendrar monstros, ou o homem, sendo indubitavemente um animal entre os animais, é, também indubitavelmente, o mais irracional de todos eles. Vou-me inclinando cada vez mais para a segunda hipótese, não por ser eu morbidamente propenso a filosofias pessimistas, mas porque o espectáculo do mundo é, em minha fraca opinião, e de todos os pontos de vista, uma demonstração explícita e evidente do que chamo irracionalidade. Vemos o abismo, está aí diante dos olhos, e contudo avançamos para ele como uma multidão de lemmings suicidas, com a capital diferença de que, de caminho, nos vamos entretendo a trucidar-nos uns aos outros. (pp.26-27)

 

Em Paris, em Roma, em Madrid, em Londres, no fim do mundo, Jorge Amado recordará o Brasil e, no seu coração, em vez daquela lenitiva mágoa dos ingénuos, que é a saudade, sentirá a dor terrível de perguntar-se: «Que posso eu fazer pela minha terra?»-e encontrar como resposta «Nada». Porque a pátria, Brasil, Portugal, qualquer, é só de alguns, nunca de todos, e os povos sevem os donos dela crendo que a servem a ela. No longo e sempre acrescentado rol das alienações, esta é, provavelmente , a maior. (p.33)

 

O prazer profundo, inefável, que é andar por estes campos desertos e varridos pela ventania, subir uma encosta difícil e olhar lá de cima a paisagem negra, escalvada, despir a camisa para sentir directamente na pele a agitação furiosa, e depois compreender que não se pode fazer mais nada, as ervas secas, rente ao chão, estremecem, as nuvens roçam por um instante os cumes dos montes e afastam-se em direcção ao mar, e o espírito entra numa espécie de transe, cresce, dilata-se, não tarda que estale a felicidade. Que mais resta, então, senão chorar? (p.85)

 

Cadernos de Lanzarote-Diário-I de José Saramago, Caminho

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publicado por C. às 16:58
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