Quarta-feira, 12 de Julho de 2017

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És um ocioso, um sonâmbulo, um indolente. As definições variam conforme as horas, os dias, mas o sentido permanece mais ou menos claro: sentes-te pouco disposto a viver, a agir, a modificar; queres apenas durar, queres apenas esperar e esquecer.

Normalmente, a vida moderna aprecia pouco tais disposições; à tua volta, desde sempre, viste privilegiar a acção, os grandes projectos, o entusiasmo: o homem que se projecta para diante, homem de olhos fixos no horizonte, homem olhando em frente. Olhar límpido, queixo voluntarioso, andar seguro, barriga para dentro. A tenacidade, a iniciativa, os feitos brilhantes, o trinfo traçam o caminho demasiado límpido de uma vida demasiado exemplar, desenham as imagens sacrossantas da luta pela vida. As piedosas mentiras que abalam os sonhos de todos aqueles que estrebucham e se atolam, as ilusões perdidas dos milhares de abandonados, aqueles que chegaram demasiado tarde, aqueles que pousaram a mala no passeio e se sentaram em cima para enxugar a fronte. Mas tu já não precisas de desculpas, de arrependimentos, de saudades. Não rejeitas nada, não recusas nada. Deixaste de avançar, mas também não avançavas, não voltas a partir, já chegaste, não vês o que irias fazer mais longe: bastou, quase bastou, num dia de Maio de muito calor, a inoportuna conjugação de um texto a que tinhas perdido o fio, de uma chávena de Nescafé tornado de súbito demasiado amargo, e de uma bacia de plástico cor-de-rosa cheia de uma água enegrecida onde flutuavam seis peúgas, para qualquer coisa se ter partido, alterado, desfeito e para aparecer à luz do dia – mas nunca há grande luz no quarto do sótão da Rue Saint-Honoré – essa verdade decepcionante, triste e ridícula como umas orelhas de burro, pesada como um dicionário Gaffiot: não te apetece continuar, não te apetece defender-te, nem atacar.

 

Um Homem que Dorme de Georges Perec, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Presença, pp. 20-21

publicado por C. às 00:03
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