Terça-feira, 25 de Julho de 2017

Paterson

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publicado por C. às 13:51
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-Ah, muito bem! - respondera o Cõnsul. _- É como diz: um sistema eléctrico. Mas, depois de beber tequila de mais, o sistema eléctrico fica talvez um pouco mais desarranjado, comprenez, como acontece às vezes no cinema, fiz-me entender? É como se fosse uma espécie de eclampsia. - O Cônsul acenara desesperadamente com a cabeça, tirando os óculos e, nessa altura, lembrava-se agora que estivera sem beber perto de dez minutos, e o efeito de tequila já quase se fora. Espreitara para o jardim e era como se as pálpebras se lhe tivessem desagregado em pedaços e andassem esvoaçando e debatendo-se à sua frente, transformadas em formas nervosas e em sombras, convulsivamente conglobadas num comprometido tagarelar dentro do seu espírito; ainda não eram verdadeiramente vozes, mas elas voltariam, vinham já a caminho, e o panorama da sua alma, semelhante ao de uma cidade, surgira-lhe mais uma vez em frente, mas, desta vez, era uma cidade assolada e consumida pelo negrume dos seus excessos. Fechando os olhos que escaldavam, pensara no belo funcionamento do sistema nervoso daqueles que se encontravam verdadeiramente vivos, com os interruptores ligados, de nervos tensos apenas em caso de perigo, dormindo sonos sem pesadelos e que se encontravam agora calmos, não propriamente a descansar e contudo equilibrados: aquilo devia ser como uma aldeia inundada de paz. Santo Deus, como aquilo lhe aumentava a tortura, (e, entretanto, os outros tinham razão de sobra para supor que ele se estava a divertir tremendamente), o ter consciência de tudo aquilo, enquanto, ao mesmo tempo, consciente da total e horrível desintegração do maquinismo, com a luz ora acesa, ora falhando, agora excessivamente brilhante como acontece com uma bateria quase descarregado- vinha, por fim, a reconhecer toda a cidade mergulhada na escuridão e sem contactos, com o trânsito transformado em mera obstrução, sob a ameaça de um ataque aéreo e as ideias em debandada, semeando o pânico...

 

Debaixo do Vulcão de Malcolm Lowry, trad. Virgínia Motta, Livros do Brasil, pp. 155-156

publicado por C. às 13:27
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Quarta-feira, 12 de Julho de 2017

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 É quando suspeitamos da nossa identidade

que a escrita fecha a vida

em túmulos minúsculos no templo

duma refeição de pé,

num ofício reles, inacabado.

Muitas vezes não passa dum romance ébrio

que a nós próprios narramos

nas noites inquietas e nas crises de angústia

mais precipitadas.

E  nesses espaços ínfimos

que são opulentos vasos de cicuta

fingimos que dançamos, ousamos que bebemos

e julgamos que ouvimos a voz feliz

de deus, sujeita a transfusões,

às cargas e descargas

das ternas libações duma mesa de outono.

Assim a natureza nos provoca

sabendo que a distância

entre a mão que escreve e o olhar que lê

é infinita.

Por isso nos seduz o cão da morte.

Como se fosse a vida que conformada insiste

e ataca ao entardecer

depois de um filme russo que era só  névoa

só sobre vivência.

 

Canis Dei de Armando Silva Carvalho, Relógio D'Água

publicado por C. às 00:10
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És um ocioso, um sonâmbulo, um indolente. As definições variam conforme as horas, os dias, mas o sentido permanece mais ou menos claro: sentes-te pouco disposto a viver, a agir, a modificar; queres apenas durar, queres apenas esperar e esquecer.

Normalmente, a vida moderna aprecia pouco tais disposições; à tua volta, desde sempre, viste privilegiar a acção, os grandes projectos, o entusiasmo: o homem que se projecta para diante, homem de olhos fixos no horizonte, homem olhando em frente. Olhar límpido, queixo voluntarioso, andar seguro, barriga para dentro. A tenacidade, a iniciativa, os feitos brilhantes, o trinfo traçam o caminho demasiado límpido de uma vida demasiado exemplar, desenham as imagens sacrossantas da luta pela vida. As piedosas mentiras que abalam os sonhos de todos aqueles que estrebucham e se atolam, as ilusões perdidas dos milhares de abandonados, aqueles que chegaram demasiado tarde, aqueles que pousaram a mala no passeio e se sentaram em cima para enxugar a fronte. Mas tu já não precisas de desculpas, de arrependimentos, de saudades. Não rejeitas nada, não recusas nada. Deixaste de avançar, mas também não avançavas, não voltas a partir, já chegaste, não vês o que irias fazer mais longe: bastou, quase bastou, num dia de Maio de muito calor, a inoportuna conjugação de um texto a que tinhas perdido o fio, de uma chávena de Nescafé tornado de súbito demasiado amargo, e de uma bacia de plástico cor-de-rosa cheia de uma água enegrecida onde flutuavam seis peúgas, para qualquer coisa se ter partido, alterado, desfeito e para aparecer à luz do dia – mas nunca há grande luz no quarto do sótão da Rue Saint-Honoré – essa verdade decepcionante, triste e ridícula como umas orelhas de burro, pesada como um dicionário Gaffiot: não te apetece continuar, não te apetece defender-te, nem atacar.

 

Um Homem que Dorme de Georges Perec, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Presença, pp. 20-21

publicado por C. às 00:03
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