Domingo, 21 de Outubro de 2012

Nas horas que me pertencem

 

«Desde que estou aqui no Instituto Benjamenta já consegui tornar-me um enigma para mim próprio. Também eu fui contagiado por uma satisfação extraordinária e até agora perfeitamente desconhecida. Obedeço sofrivelmente, não tão bem como Kraus, que é exímio em lançar-se, com alguma precipitação, ao cumprimento zeloso de ordens. Num ponto, todos nós alunos (Kraus, Schacht, Schilinski, Fuchs, o grande Peter, eu e outros) nos assemelhamos, a saber, na mais completa pobreza e dependência. Somos pequenos, todos nós, pequenos até à indignidade. (…)» (p.10)

 

«Não dever fazer alguma coisa é por vezes tão apetecível que não podemos impedir-nos de a fazer. E é por esta razão que sinto este amor fundamental por qualquer espécie de obrigação, porque a obrigação permite as alegrias da infracção, Se nenhuma ordem, nenhum dever vigorassem no mundo, eu morreria de fome, de atrofia, e aborrecimento. O que devem fazer é incitar-me, obrigar-me, tutelar-me. Agrada-me como mais não. Mas no fim quem decide sou eu e eu apenas. Atiço sempre um pouco a cólera da lei e quando a vejo então de testa franzida esforço-me por amansá-la. (…)» (pp. 29-30)

 

«Curriculum Vitae

Jakob von Gunten, abaixo assinado, filho de pais honrados, nascido em tal dia, criado em tal parte, entrou como aluno no Instituto Benjamenta para aí adquirir os parcos conhecimentos necessários para entrar ao serviço de alguém. Não tem da vida esperança alguma. Deeja ser tratado com severidade para assim aprender o significado do aprumo, mas pensa saber comportar-se com honra e probidade. Os von Guten são uma família antiga. Foram em tempo guerreiros, mas o ímpeto para a luta esmoreceu, e são hoje deputados e comerciantes, e o mais jovem da casa, objecto deste relatório, decidiu abandonar todas as tradições de altivez. Quer ser ensinado pela vida e não por princípios hereditários ou aristocráticos.(…) Hoje deseja poder despedaçar a altivez e a soberba que porventura  o dominem ainda contra penhascos implacáveis de trabalho duro. É reservado no que diz e nunca trairá confidências. Não acredita num reino dos céus nem num inferno. A satisfação daqueles que o empregarem será o seu paraíso, e a ausência daquela será o seu inferno aniquilador, mas está convencido de que ficarão satisfeitos com ele e com o seu trabalho. Esta sólida convicção dá-lhe a coragem para ser quem é.

Jakob  von Gunten» (pp.51-53)

 

«(…) Escuta! Presta bem atenção, O que te digo pode um dia vir a ser-te útil. Acima de tudo: não tentes ir contra a corrente. Ir contra a corrente, irmão, isso não existe, porque talvez não haja nada no mundo por que valha a pena lutar. E, porém, tens de lutar sempre, apaixonadamente até. Mas para que não te tornes demasiado ávido: lembra-te bem: não há nada por que valha a pena lutar. Tudo está apodrecido. Compreendes isto? (…)«É claro que existe aquilo a que chamam progresso, mas esta é apenas uma das muitas mentiras que os homens de negócios espalham para poderem extorquir dinheiro às massas com ainda mais insolência e impiedade. As massas são os escravos do nosso tempo, e o indivíduo é o escravo da vasta ideia que subordina as massas. Já não há nada de belo, de excelente. Tens de ser tu a sonhar o que é belo e bom e honesto. (…)» (pp.66.67)

 

 

Jakob von Gunten- Um Diário de Robert Walser, trad. Isabel Castro Silva, Relógio d’Água

publicado por C. às 15:37
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