Terça-feira, 6 de Novembro de 2012

Cogito, Ergo Sum

«…Erenburg não fornece as suas fontes. As poucas linhas que deixou abrigam uma confusão de vozes, um produto social. Desconhecidos e anônimos são os que falam aqui: um discurso coletivo. No entanto, o conjunto destas expressões anônimas, contraditórias, unifica-se e ganha uma nova qualidade: faz nascer a história. Foi assim que, desde os tempos mais antigos, transmitiu-se a História; como saga, como epopeia. Como romance coletivo.

A História como ciência só existe a partir do momento em que não somos mais dependentes da tradição oral, a partir do momento em que existem “documentos”: papéis diplomáticos, textos de contratos, protocolos, publicações de atas. Mas ninguém tem em mente a História dos historiadores. A antipatia em relação a ela é elementar e parece insuperável. Todos conhecem esta antipatia, desde os tempos de escola. Para os povos, a História é, e permanece sendo, um feixe de histórias. Ela é aquilo que se observa, que se recorda e que pode ser narrado vezes sem fim: um recontar da história. É por isso que a tradição oral não é superada por nenhuma lenda, nenhuma trivialidade e nenhum erro, contanto que seja uma representação concreta das lutas do passado. E daí também decorre a notória impotência da ciência diante da página ilustrada e dos livros “menores”. “Aqui estou, não posso agir de outro jeito.” “E, no entanto, move-se.” Nenhuma investigação científica poderia apagar estas palavras. A prova de que nunca foram ditas não diz nada contra a superioridade delas. A Comuna de Paris e o ataque ao Palácio de Inverno, Danton na guilhotina e Trótski no México: a imaginação coletiva participa mais de todas estas imagens do que qualquer ciência. A Grande Marcha é para nós, no final das contas, aquilo que se conta da Grande Marcha. A História é uma invenção para a qual a realidade fornece os elementos. Não é, porém, uma invenção arbitrária. A curiosidade que desperta se baseia no interesse dos que a narram; permite àqueles que a escutam reconhecer e determinar melhor seus próprios referenciais como também os de seus inimigos. Sem dúvida, devemos muito à investigação científica desinteressada; no entanto ela é como um pobre-diabo, uma figura artificial. Só o verdadeiro sujeito da História deixa a sua sombra. E esta sombra é projetada como ficção coletiva.»

 

 

O Curto Verão da Anarquia de Hans Magnus Enzensberger, trad. Márcio Suzuki, Companhia das Letras, pp.15-16.

publicado por C. às 21:26
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