Domingo, 18 de Novembro de 2012

Paul Celan-alguns poemas


GRÃO-DE-LOBO

 

Põe o ferrolho à porta: há

rosas na casa.

sete rosas na casa.

o candelabro de sete braços na casa.

O nosso

filho

sabe isso e dorme.

 

(Lá longe, em Michailowka, na

Ucrânia, onde

eles me mataram pai e mãe: que

floria aí, que

floresce aí? Que

flor, mãe,

te fazia doer aí

com o seu nome,

mãe, a ti,

que dizias grão-de-lobo, e não

lupino?

 

Ontem

veio um deles e

matou-te

outra vez no

meu poema.

 

Mãe,

mãe, que

mão apertei eu

quando com as tuas

palavras fui para

a Alemanha?

 

Em Aussig, dizias tu sempre, em

Aussig junto

ao Elba,

durante

a fuga.

Mãe, aí moravam

assassinos.

 

Mãe, eu

escrevi cartas.

Mãe, não veio resposta.

Mãe, veio uma resposta.

 

Mãe, eu

escrevi cartas a -

Mãe, eles não os escreveriam

se não fosse o poema que

eu escrevi, por

ti, pelo

amor

do teu

Deus.

Bendito, dizias tu, seja

o Eterno, e

louvado, três

vezes

Amen.

 

Mãe, eles ficam calados.

Mãe, eles consentem que

a ignomínia me difame.

Mãe, ninguém

cala a boca aos assassinos.

 

Mãe, eles escrevem poemas.

Oh,

mãe, quanto

chão do mais estranho dá o teu fruto!

Dá ese fruto e alimenta

os que matam!!

 

Mãe, estou

perdido.

Mãe, estamos

perdidos.

Mãe, o meu filho, que

se parece contigo.)

 

Põe o ferrolho à porta: há

rosas na casa.

sete rosas na casa.

o candelabro de sete braços na casa.

O nosso

filho

sabe isso e dorme.

 

(21-10-1959; 25-4-1965)

 

 

 

 

SEM BRILHO, LEVADO

todo para dentro, o olhar:

 

A sombra

dupla que um dia fui

divide-se

em duas, erguem-se

as alas da noite -  agora vai,

palavras que estiveste tempo de mais no mundo, rola,

sai -

 

Com os olhos de uma criança, com

os olhos da sua mãe

encontro eu a minha segunda,

a primeira

janela

 

(5-2-1961)

 

 

 

 

NÃO TE ESCREVAS

entre os mundos,

 

ergue-te contra

a variedade de sentidos,

 

confia no rasto das lágrimas

e aprende a viver.

 

(23,24-4-1966; 12-7-1966)

 

 

 

 

COM O VENTO PELAS COSTAS

morro e apago-me

na grande monção -

é então que verdadeiramente vivo.

 

(16-12-1965)

 

 

 

 

O MEU PESO

nas tuas mãos a-

bertas:

a paciência in-

sonora do meu desespero.

 

(28-1-1969)

 

 

A Morte É Uma Flor, Poemas do Espólio, de Paul Celan, trad. João Barrento, Cotovia.

publicado por C. às 19:31
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