Segunda-feira, 19 de Novembro de 2012

Nas horas que me pertencem

«Nada disto é novo. São estas as condições que há trinta anos Sartre descreveu em A Náusea (ainda hoje, na minha opinião, o seu melhor livro) em termos de má fé e esprit de sérieux, um rnundo onde todo o indivíduo publicamente reconhecido pertence à categoria dos salauds, e tudo aquilo que é existe numa facticidade opaca e sem sentido que atordoa e provoca náuseas. E são as mesmas condições que há quarenta anos (se bem que com propósitos inteiramente diferentes) Heidegger descreveu com uma precisão arrepiante nesses parágrafos de O Ser e o Tempo que dizem respeito ao «eles», à sua «tagarelice», e de um modo geral a tudo quanto, exterior ao abrigo e à protecção da intimidade do eu, aparece em público. Na descrição que Heidegger faz da existência humana, tudo quanto é real ou autêntico é atacado pela força esmagadora da «tagarelice» que irresistivelmente emana do domínio público, determinando cada aspecto da existência quotidiana, antecipando e aniquilando o sentido ou o sem-sentido de tudo o que o futuro possa trazer. Não há, segundo Heidegger, outro meio de fugir à«trivialidade incompreensível» deste mundo banal de todos os dias, senão abandoná-lo em proveito dessa solidão que os filósofos, desde Parménides e Platão, sempre opuseram ao domínio político. O que aqui nos interessa não é a relevância filosófica das análises de Heidegger (que, na minha opinião, é inegável) nem a tradição do pensamento filosófico de que são herdeiras, mas exclusivamente certas experiências subjacentes do tempo e a sua descrição conceptual. No nosso contexto, o que importa é que uma afirmação tão sarcástica e aparentemente tão perversa como «Das Licht der Õffentlichkeit verdunkelt alies» («A luz do público obscurece tudo») foi ao cerne do problema, não sendo, afinal, outra coisa senão ò resumo mais conciso das condições existentes.» (p. 9)

 

 

«Nada no nosso tempo é mais duvidoso, penso eu, do que a nossa atitude para com o mundo, nada menos garantido do que o acordo, que uma distinção nos impõe e que a sua existência afirma, com aquilo que se manifesta em público. No nosso século até mesmo o génio só se conseguiu desenvolver em conflito com o mundo e o domínio público, embora naturalmente encontre, como sempre fez, a sua forma própria de acordo com o seu público. Mas o mundo não é a mesma coisa que as pessoas que o habitam. O mundo está entre as pessoas, e este espaço-entre é hoje — muito mais do que os homens, ou mesmo o homem, ao contrário do que muitas vezes se pensa — o objecto das maiores preocupações e o domínio das convulsões mais evidentes em quase todos os países do globo. Mesmo onde o mundo ainda se encontra numa relativa ordem, ou é mantido numa relativa ordem, o domínio público perdeu a capacidade de iluminação que originalmente fazia parte da sua natureza própria. São cada vez mais os habitantes dos países do mundo ocidental, que desde o declínio do mundo antigo considerou a liberdade em relação à política como uma das suas liberdades fundamentais, a exercer esta liberdade, retirando-se do mundo e das suas obrigações para com ele. Este alheamento do mundo não prejudica necessariamente o indivíduo; até pode permitir-lhe cultivar grandes talentos, elevando-o ao grau de génio, e por esse desvio o tornando uma vez mais útil ao mundo. Mas com cada um desses alheamentos verifica-se uma perda quase palpável para o mundo; o que se perde é o espaço-entre particular e geralmente insubstituível que deveria ter-se criado entre esse indivíduo e os seus semelhantes.» (pp. 12-13)

 

 

 
«A história conheceu muitos períodos de tempos sombrios nos quais o domínio público se obscureceu e o mundo se tornou tão incerto que as pessoas deixaram de pedir à política mais do que a devida consideração pelos seus interesses vitais e pela sua liberdade pessoal. Os que viveram nesses tempos e foram por eles formados sempre tenderam, provavelmente, a desprezar o mundo e o domínio público, a ignorá-los na medida do possível ou até a passai' por cima deles, contornando--os, por assim dizer — como se o mundo fosse uma simples fachada atrás da qual as pessoas se pudessem esconder — de modo a chegar a um entendimento recíproco com os seus semelhantes sem levar em conta o mundo que se situa entre eles. Nesses tempos, quando as coisas correm bem, desenvolve-se uma forma particular de humanidade. (...)» (p.21)

 

 

Homens Em Tempos Sombrios, de Hannah Arendt, trad. Ana Luísa Faria, Relógio D'Água.
 

publicado por C. às 13:52
link do post | comentar | favorito
|

.pesquisar

.arquivos

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Outubro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds