Quinta-feira, 22 de Novembro de 2012

Nas horas que me pertencem

«O acordar começa com o dizer existo e agora. Então, aquele que acordou mantém-se por instantes deitado, de olhar fixo no tecto e em si próprio, até ter reconhecido o eu e, a partir daí, deduzido eu existo, eu existo agora. O aqui vem a seguir e é pelo menos negativamente recon­fortante; porque o aqui, esta manhã, está onde esperava encontrar-se naquilo a que costuma chamar-se em casa.

Mas o agora não significa simplesmente agora. Agora é também uma recordação fria, um dia a mais do que ontem, um ano a mais do que o anterior. Todo o agora traz o rótulo da sua data, tornando obsoletos todos os agora passados, até que, mais cedo ou mais tarde... Tal­vez... Não, talvez, não... De certeza: ele virá.

O medo belisca o nervo vago. Um recuo doentio pe­rante aquilo que, algures lá fora, espera, sem vida.

Mas, entretanto, o córtex, esse severo disciplinador, tornou o seu lugar nos centros de controlo e tem estado a testá-los, uns a seguir aos outros; as pernas esticam-se, o fundo das costas arqueia-se, os dedos crispam-se e dis­tendem-se. E agora, através de todo o sistema de inter­comunicação, é emitida a primeira ordem de carácter geral do dia: LEVANTAR.

Obediente, o corpo salta para fora da cama — con­traindo-se com dores agudas nos polegares artríticos e no joelho esquerdo, levemente nauseado com os espasmos do piloro — e, nu, cambaleia na direcção da casa de banho, onde esvazia a bexiga e se pesa; ainda ultrapassa um pouco os setenta e cinco quilos, apesar de toda aquela labuta no ginásio! Em seguida, encaminha-se para o es­pelho.

O que aí vê não é tanto um rosto como a expressão de uma situação. Aí está o que fez de si próprio; aí está a miséria em que de algum modo conseguiu transformar--se durante os seus cinquenta e oito anos de vida; expressa em termos de um olhar frouxo e atormentado, de um nariz grosseiro, de uma boca de cantos descaídos, num trejeito como que provocado pela acidez das suas próprias toxi­nas, a face solta das suas suspensões de músculo, o pes­coço flácido desdobrando-se em pequenas rugas. O olhar atormentado é o de um nadador ou o de um corredor no desespero do cansaço; todavia, parar é impensável. O indivíduo que estamos a observar lutará até cair. Não porque seja heróico. Não é capaz de imaginar uma alter­nativa.

Olhando cada vez mais fixamente para o espelho, vê muitos rostos contidos no seu — o rosto da criança, do rapaz, do jovem, do menos jovem —, todos ali estão, pre­servados como fósseis em camadas sobrepostas e, tal como os fósseis, mortos. A sua mensagem para esta criatura morta-viva é: «Olha para nós... Morremos... O que há a recear?»

E o indivíduo responde-lhes: «Mas aconteceu tão gra­dualmente, tão facilmente. Tenho medo de uma arreme­tida.»

Não pára de olhar-se. Os lábios descolam-se. Começa a respirar pela boca. Até que o córtex, impaciente, lhe ordena que vá lavar-se, barbear-se. Tem de cobrir a sua nudez. Tem de vestir-se, pois vai lá para fora, para o mundo dos outros. E esses outros terão de saber identifi­cá-lo. O seu comportamento tem de ser aceitável aos olhos deles.

Obediente, lava-se, barbeia-se, penteia-se, pois aceita as suas responsabilidades para com os outros. Sente-se mesmo satisfeito pelo lugar que ocupa entre eles. Sabe o que esperam dele.

Sabe o seu nome. Chama-se George.

Nessa altura, já está vestido: transformou-se num ele; já se transformou mais ou menos em George — embora ainda não inteiramente no George que eles exigem e que estão preparados para reconhecer. Os que lhe telefonam a esta hora da manhã ficariam espantados, talvez mesmo assustados, se imaginassem que é com este humanóide que estão a falar. Mas é claro que isso nunca seria possí­vel — a imitação da voz do seu George é quase perfeita. Até mesmo Charlotte se deixa levar por ela. Só por duas os três vezes sentiu algo de estranho e perguntou:

— Geo... Sentes-te bem?

Atravessa o aposento da frente, a que chama escritó­rio, e desce a escada. As escadas formam uma curva; são estreitas e inclinadas. É possível tocar nos dois corrimãos com os cotovelos e temos de baixar a cabeça, mesmo que, como George, não tenhamos mais de um metro e sessenta de altura. Ê uma casa pequena, em que o espaço foi meti­culosamente estudado. É frequente George sentir-se pro­tegido pela sua pequenez; aqui quase não há espaço para nos sentirmos sós.» (pp.11-13)

 

«E agora, em volta de George, aproximando-se dele, atravessando a alameda vinda de todas as direcções, está a matéria-prima feminina e masculina que diariamente é alimentada nesta fábrica, ao longo das correias de trans­porte, para ser processada, embalada e colocada no mer­cado. Negros, mexicanos, judeus, japoneses, chineses, lati­nos, eslavos, nórdicos; as cabeças escuras predominam sobre as louras. Correndo para cumprir os horários, detendo-se a namoriscar, passeando em viva discussão, repe­tindo qualquer lição; todos carregados de livros, todos apressados.

O que pensam eles que estão a fazer aqui? Bem, existe a resposta oficial: a preparar-se para a vida, o que significa um emprego e segurança no seio da qual possam criar os filhos e ensiná-los a preparar-se para a vida, o que significa um emprego e segurança no seio da qual... Mas, apesar de todos os conselheiros de orientação pro­fissional, dos panfletos indicando-lhes como poderão ga­nhar bom dinheiro se investirem em qualquer estágio técnico sólido — farmacologia, digamos, ou contabilidade, ou as várias oportunidades que se oferecem no vasto campo da electrónica —, ainda há bastantes, por muito incrível que pareça, que insistem em escrever poemas, romances, peças de teatro! Estonteados com a falta de sono, escre­vinham nos pequenos intervalos entre as aulas, o emprego a tempo parcial e a vida de casados. As palavras enton­tecem-nos enquanto varrem uma sala de operações, sepa­ram cartas numa estação dos correios, seguram o biberão do bebé, fritam hamburgers. E algures, no meio da sua escravidão ao que tem-de-ser, o louco «podía-ser» segre­da-lhes que vivam, que aprendam, que experimentem... O quê? Maravilhas! A Estacão no Inferno, a Viagem ao Fim da Noite, os Sete Pilares da Sabedoria, a Luz Clara do Vácuo... Algum deles o fará? Oh, claro. Um, pelo menos. Dois ou três, no máximo, em todos estes milhares.

Aqui, no meio deles, George sente uma espécie de vertigem. Oh, Deus, o que será de todos eles? Que opor­tunidades têm? Devo gritar-lhes, agora mesmo, neste lugar, que não vale a pena?

Mas George sabe que não pode fazer isso. Porque, por absurdo e despropositado que pareça, contra a sua vontade, ele é um representante da esperança. E a espe­rança não é falsa. Não. Só que George é como um ho­mem que tenta vender um diamante verdadeiro por um níquel, na rua. O diamante não está senão ao alcance de uns quantos, porque a grande maioria apressada nunca se atreveria a acreditar que ele poderia ser verdadeiro.» (pp.40-41)

 

Um Homem no Singular de Christopher Isherwood, trad. Filomena Duarte, Labirinto.

publicado por C. às 13:54
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