Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

#1

 

 

 

 

 

O retorno de Dulce Maria Cardoso, publicado pela Tinta da China, é um livro interessante, que aborda o impacto do processo de descolonização na vida de milhares de portugueses que se vêem confrontados com a realidade de serem forçados a abandonar a sua casa, a terra que para tantos foi de oportunidade e retornar à metrópole, que em todos os aspectos estava tão distante, para aí recomeçarem a partir do nada uma nova vida, como se este retorno por si só não constituísse um desafio sobre-humano deparam-se com uma democracia recém-nascida que se procurava estabelecer, vingar por cima de confrontos ideológicos, que por pouco não conduziram a uma guerra civil.

 A realidade é que senti curiosidade acerca do burburinho que se seguiu à publicação deste título, não tanto pelo título de Melhor Livro do Ano de 2011, aliás a decepção com o Los Enamoramientos do Javier Marías, o equivalente em Espanha, fez com analisasse calmamente o interesse que a leitura deste  O retorno  pudesse constituir, e a dada altura, particularmente devido à edição low-cost, com preço de FLLX, resolvi-me a dar-lhe preferência em relação a uma boa quantidade de títulos que  fazem parte da lista “must read” que aumenta de dia para dia e perante essa inquietação recordo os versos de Drummond de Andrade “Nem sequer li os textos das pirâmides/ os textos dos sarcófagos,/estou atrasadíssimo nos gregos,/não conheço os Anais de /Assurbanipal,como é que vou -/mancebos,/senhoritas,/-chegar à poesia de/ vanguarda/e às glórias do 2.000, que telefonam”.

Voltando a o retorno. Não posso compará-lo com os livros que foram publicados no mercado editorial português no ano passado, poderei apenas analisá-lo comparativamente aos livros que tenho lido, aliás acho que qualquer leitor amador o faz partindo desse pressuposto. Posto isto, posso considerá-lo um dos melhores livros que li? Não. Consigo admitir que o livro está bem escrito, que o tema é fundamental para abrir novas problematizações literárias, sociais. Ao longo dos anos, sobretudo os anos escolares, as ideias gerais são as de um país governado por Salazar, acções militares nas colónias, cujos intervenientes eram tantas vezes meninos-homens arrancados do seio materno, que perderam a vida, mesmo quando regressaram fisicamente intactos, uma revolução sem sangue, mas com cravos e um período algo conturbado que ia ameaçando uma recém-nascida democracia. Na realidade raras vezes chegaram ecos dos milhares de pessoas que se viram obrigadas a regressar a Portugal e qual foi a sua realidade, e é precisamente neste aspecto que o retorno ganha relevância.

 Se tivesse de apontar o que sinto que não me convenceu diria que foi a voz da personagem Rui, o narrador adolescente que acompanhamos desde a saída de Angola até à chegada à capital, onde fica num quarto de hotel, cerca de um ano, com a família. A linguagem, as ideias são aparentemente simples servindo o que podemos pensar que são os sentimentos, as dúvidas, os tumultos interiores de um jovem nesta situação. No entanto este adolescente parece-me ter uma linguagem mais próxima do que pensaríamos que um jovem, que está a sofrer mutações físicas, próprias da idade, e alterações da Vida que sempre conheceu e vê agora abalada, utiliza do que a que efectivamente utilizaria numa situação semelhante. Parece-me que oscila entre o registo de memória e o quotidiano e no fim essa voz não capta as nuances de cada discurso. Exceptuando esta questão, que se prende com as personagens que, com as informações que os autores nos vão fornecendo, vamos criando na nossa mente e por isso gostamos mais ou menos, acredito que é um livro a ter em conta, bem como a sua autora.

É benéfico para o próprio mercado editorial que existiam publicações de qualidade, e que o grande público fomente esse mercado, ao contrário do que é o quotidiano das editoras e livrarias nacionais.

 

publicado por C. às 20:13
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7 comentários:
De numadeletra a 25 de Julho de 2012 às 22:32
Se até há bem pouco tempo não tinha sentido qualquer tipo de curiosidade em ler um livro de Dulce Maria Cardoso, nos últimos dias apoderou-se de mim uma vontade urgente.
Este artigo veio confirmar a minha decisão.
De C. a 26 de Julho de 2012 às 10:54
É um livro que merece atenção, apesar de existirem pormenores que não me convenceram na totalidade.
A par de publicações, vou-lhes chamar estranhas, porque não tenho capacidade de compreender certos fenómenos, que andam por aí, há também a preocupação de certas editoras de publicarem autores nacionais, que escrevem bem, muitos deles que já escrevem há imenso tempo, simplesmente não são fenómenos de vendas e o facto de insistirem é de louvar.
Claro que por vezes se geram fenómenos que não são sinónimo de falta de qualidade- Nos próximos tempos espero ler "O Teu Rosto Será o Último". Mas essa espero que seja outra discussão.:)
De pedrices a 31 de Agosto de 2012 às 17:26
também já escrevi sobre este livro. Demasiado falado, talvez. Não é assim tão bom. Embora seja uma leitura muito agradável.
De C. a 2 de Setembro de 2012 às 21:28
Concordo.
Dá que pensar- qualidade em relação quantidade do que é publicado num ano.
-relação entre editores e imprensa "literária" e como se criam fenómenos.

De qualquer maneira mantenho que é um livro que levanta questões interessantes. Não me rendi, mas também é verdade que quanto mais vou lendo menos me sinto arrebatada por "novos" autores. Dos livros que li este ano apenas 4 ou 5 estão acima da média, pelo menos da minha, destaco o Bruno Schulz e o Rui Nunes.
Qual será o livro de 2012 ?:D
De pedrices a 3 de Setembro de 2012 às 00:13
Nunca li nada desses. Mas a verdade é que não tenho lido muita coisa portuguesa. Então e o O Teu Rosto Será o Último? Pesquisei mas parece-me que não tens aqui nada. Não leste?...
De C. a 3 de Setembro de 2012 às 14:39
Ainda não li (shame on me). Com a propaganda que existiu estou a deixar passar algum tempo para não me desiludir. Além de que ando com o "Caderno de Lanzarote I", "Rabos de Lagartija" e "Idade de Homem"-Haja tempo;)
De pedrices a 3 de Setembro de 2012 às 18:16
Se estás a ler Saramago, então calo-me já. Quando acabares, aí sim, tenho a dizer-te que o "rosto" é imperdível :)

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