Sábado, 5 de Janeiro de 2013

"Cartas a um Jovem Poeta"-Rilke

 

 

 

Cartas a um Jovem Poeta de Rainer Maria Rilke, trad. Pref. e notas de Vasco Graça Moura, ed. Asa.

 

 

 

 

Em 1929, três anos após a morte de Rainer Maria Rilke,  Franz Kappus publica 10 cartas que recebeu, entre 1903 e 1908, do poeta d’ As Elegias de Duíno.

Rilke procura responder às dúvidas e inquietações artísticas do jovem aspirante a poeta, Kappus, reflectindo sobre a vocação artística, a criação, a crítica literária, e sobretudo sobre a vida nas suas várias dimensões- o silêncio, a solidão, a tristeza, o amor, a sexualidade.

 

 

 

 

 

  

«Pergunta-me se os seus versos são bons. É a mim que pergunta. Já antes perguntou a outros. Envia-os às revistas. Compara-os com outros poemas e fica inquieto se algumas redacções recusam as suas tentativas. Ora bem (já que me autorizou a aconselhá-lo), peço-lhe que se deixe de tudo isso. O senhor olha para fora e é exactamente o que não deveria fazer agora. Ninguém pode dar-lhe conselhos ou ajudá-lo, ninguém. Há um único meio. Entre dentro de si. Procure o motivo que o faz escrever; examine se tem raízes até ao lugar mais fundo do seu coração, confesse a si mesmo se viria a morrer no caso de escrever lhe ser vedado. Isto antes de mais nada: pergunte-se na hora mais calada da sua noite: tenho de escrever? Escave em si mesmo em busca de uma resposta profunda. E se esta soar afirmativamente, se o senhor tiver de enfrentar esta questão séria com um forte e simples “Sim, tenho”, então construa a sua vida em função dessa necessidade; a sua vida terá de ser um sinal e um testemunho desse impulso até nas horas mais indiferentes e insignificantes. Então aproxime-se da Natureza. Então tente dizer, como se fosse o primeiro homem, o que vê e vive e ama e perde.» (Paris 17 de Fevereiro de 1903- p.24)

 

«Deve saber naturalmente que cada uma das suas cartas continuará a dar-me muito prazer, mas terá de ser indulgente quanto a respostas que talvez o deixem muitas vezes de mãos vazias, pois no fundo, e logo nas coisas mais profundas e mais importantes, estamos indizivelmente sós e, para que um possa aconselhar ou ajudar o outro, muita coisa tem de acontecer, muita coisa tem de resultar, toda uma constelação delas tem de ocorrer para que assim seja. (Viareggio, junto a Pisa, 5 de Abril de 1903-p.31)

 

«(…) E faço-lhe já um pedido: leia o menos possível coisas estético-críticas,- ou são preconceitos de escola, rígidos e absurdos na sua rigidez inanimada, ou são hábeis jogos de palavras, em que hoje ganha um ponto de vista e amanhã o seu oposto. As obras de arte são de uma solidão infinita e nada pode atingi-las menos do que a crítica. Só o amor pode apreendê-las e guardá-las e ser justo a seu respeito.- Dê razão a si mesmo e àquilo que sente face de tais disputas, perorações ou introduções; e, se não tiver razão, com o tempo, o crescimento natural da sua vida interior há-de levá-lo lentamente a outras intuições. Deixe que os seus juízos tenham a sua própria, tranquila e imperturbada evolução, pois esta, como qualquer progresso, tem de vir do íntimo e por nada pode ser pressionada ou acelerada. Tudo tem um tempo até ser dado à luz. Deixar perfazer-se no mais fundo de nós cada impressão e cada germe de um sentimento, no escuro, no indizível, no inconsciente, no intangível pelo próprio entendimento, e esperar com a maior humildade e paciência a hora do nascer de uma nova claridade: só isso é viver na arte: na compreensão como na criação. (…)» (Viareggio, 23 de Abril de 1903-pp.38-39)

 

«Não quero que fique sem uma saudação minha agora que vai ser Natal e que a sua solidão, nesses festejos, lhe vai ser ainda mais difícil de suportar do que antes. Mas se então se aperceber de que ela é grande, alegre-se com isso; pois o que seria uma solidão (pergunte-o a si mesmo) que não tivesse grandeza? Só há uma solidão e essa é sempre grande e difícil de viver e quase todos têm horas em que bem gostariam de trocá-la por qualquer companhia, ainda que banal e bem barata, pela aparência de uma consonância mínima com quem quer que apareça, até com o mais indigno…Mas talvez já sejam essas, exactamente, as horas em que a solidão cresce; que o seu crescimento é doloroso como o crescer dos meninos e triste como o princípio das primaveras. Mas isso não deve fazer com que se iluda. O que é necessário é só isto: solidão, grande solidão interior. Ensimesmar-se e por horas e horas não ver ninguém,- tem de se conseguir isso. Estar sozinho, como se estava em criança quando os crescidos iam e vinham, implicados em coisas que pareciam grandes e importantes, q porque os adultos pareciam tão ocupados e não se percebia nada do que eles faziam.» (Roma. 23 Dezembro de 1903- p.59)

 

«(…) Creio que quase todas a nossas tristezas são momentos de tensão que nós sentimos como paralisia, porque já não conseguimos ouvir viverem os nossos sentimentos feitos estranheza. Porque estamos sozinhos com a estranheza que entrou em nós; porque nos foi retirado por um momento tudo aquilo em que confiamos e nos é habitual; porque estamos no meio de uma passagem onde não podemos ficar. Por isso também a tristeza passa: o novo em nós, o que se lhe acrescenta, penetrou no nosso coração, foi para a sua câmara mais íntima e também já lá não está,- passou ao sangue. (…)» (Bogerdy Gard, Flädie, Suécia, 12 Agosto de 1904-p. 78)

(Rilke em Moscovo. Esboço a lápis de Leonid Pasternak)

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