Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013

Nas horas que me pertencem

PROMETEU- É aqui o meu mundo, o meu Todo!

Sinto aqui que sou eu;

Aqui todos os meus desejos incarnados

Em formas corporais.

O meu espírito mil vezes dividido

E todo inteiro nos meus queridos filhos.

 

(Entra Minerva)

 

PROMETEU- Pois ousas, ó minha deusa?

Ousas tu aproximar-te do inimigo de teu pai?

MINERVA- Honro meu pai,

E a ti amo-te, Prometeu!

PROMETEU- E tu és ao meu espírito

O que ele é a si mesmo;

Desde o princípio

Foram tuas palavras para mim a luz do céu!

Sempre como se a minh'alma a si mesma falasse,

A si se abriss

E as harmonias gémeas suas

Nela ressoassem, vindas dela.

Eis o que eram as palavras tuas.

E assim eu não era eu,

E uma divindade falava

Quando julgava falar eu;

E quando cria que falava a divindade,

Era eu que falava.

E assim contigo e comigo

Tão unido, tão íntimo,

Eterno para ti o meu amor!

MINERVA- E eu a ti presente eternamente!

PROMETEU- Como a luz doce do crepúsculo

Do sol desaparecido

Surge e sobe inundante

Além do escuro Cáucaso

E envolve a min'alma de quietude deleitosa,

Ausente mesmo a mim sempre presente,

Assim foram crescendo as minhas forças

Com cada hausto do teu ar celeste.

E que direiro

Se arrogam cobiçosos os altivos

Habitantes do Olimpo

Sobre as minhas forças?

São minhas, e meu é o uso delas.

Nem um só passo a mais

A favor do mais alto dos deuses!

Para eles? Existo eu para eles?

MINERVA-Assim o Poder pensa.

PROMETEU-Também eu, ó deusa, penso

E também sou poderoso.-

Outrora!- Não me viste muitas vezes

Em voluntária servidão

Carregar o fardo que eles

Com solene gravidade me punham sobre os ombros?

Não levei a cabo o trabalho,

Toda a tarefa, por ordem deles,

Porque supunha

Que eles viam o passado, o futuro

No presente,

E que o seu governo, a sua lei

Eram originária,

Desinteressada sabedoria?

MINERVA- Servias, para seres digno da liberdade.

PROMETEU- E por nada no mundo trocaria

Com o pássaro dos trovões,

E empunhar altivo os relâmpagos do amo

Em garras de escravo.

Que são eles? Que sou eu?

MINERVA- É injusto o teu ódio!

Aos deuses coube em sorte a duração

E poder e sabedoria e amor.

PROMETEU- Mas não têm tudo isso

Sozinhos!

Como eles, duro também.

Todos nós somos eternos!-

Do meu começo não me lembro,

A acabar não me sinto chamado, E não vejo o fim.

Sou pois eterno, porque sou!-

(...)

 

PROMETEU (Fragmento Dramático da Juventude) de Goethe, trad. Paulo Quintela, Coimbra (pp.32-35)

 

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publicado por C. às 20:29
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