Sábado, 2 de Fevereiro de 2013

Nas horas que me pertencem

MODESTA PROPOSTA PARA PROTEGER OS JOVENS...

 

“Mais anacrónica que a própria poesia me parece ser a con­vicção de que ela seja perigosa. Na Europa, as pessoas chegaram a esta conclusão há bastante tempo. Eu me limito a lembrar aque­le famoso filósofo da península Balcânica, que viveu de 427 a 347 antes de Cristo, e que, após ter composto alguns versos que eram evidentemente bastante diletantes, concluiu que esta era uma atividade que ameaçava o Estado. Estranhamente, este ponto de vista sobreviveu até o nosso século, e assim ainda podemos registrar, aqui e ali, tentativas de sustar as (anacronicamente) chamadas Belas Letras em geral, e a poesia em particular, através de censura, de perseguições judiciais e do exílio dos seus criadores, bem como vários outros tipos de coisas desagradáveis. É difícil explicar a veemência dessas reações. Uma antiga justifica­tiva se refere às mentes tenras dos jovens ainda não formados moralmente e que precisam ser protegidos do veneno lento da imagi­nação literária.

Seria de se pensar que a tese do caráter corruptor da poe­sia (e de outros produtos similares) sobre a juventude já teria desaparecido. Afinal de contas, o volume médio de vendas de um livro de poesias é, atualmente, de quatrocentos a oitocentos exemplares. Poucas coisas sugerem que nossos estudantes e aprendizes, tomados por uma espécie de hipnose em massa, pos­sam abandonar seus gravadores cassete e suas motocicletas, negli­genciando flagrantemente seus deveres esportivos, consumistas e copulativos para se entregarem sem inibições aos prazeres da lírica.

No entanto, a superstição associada aos poderes supostamente ocultos, e portanto traiçoeiros, da poesia (e também de todas as outras artes) é tão antiga e está tão profundamente enraizada que resiste facilmente a qualquer evidência. Atualmente, ela reside menos nas cabeças conservadoras que nas progressistas, e o faz em duas variantes que, à primeira vista, podem dar a impressão de se excluírem mutuamente.

Por um lado, o caráter inofensivo das produções estéticas é negado com a referência ao seu potencial subversivo oculto. Essas fabulosas energias críticas, que supostamente estariam adormeci­das em sonatas e sonetos, esse utópico surplus apontaria sempre além do péssimo estado das coisas existentes, prometendo a existência de algo Totalmente Diferente. Esse discurso, que de certa forma pretende uma revolucionária salvação honrosa para a poesia, depende obviamente da crença na sua periculosidade; e de fato, seus defensores chegam a usar as palavras "força explosiva", como se, por exemplo, o volume Hauspostille, de Brecht, tivesse sido feito não de papel, mas de dinamite.

Não menos críticas e nem menos veementes são as teorias que pretendem difamar a honra revolucionária da poesia, ao invés de enaltecê-la. Ela serviria — e este cantochão também conhece­mos de cor, como todos os exercícios artísticos burgueses — a uma única meta: a estabilização das relações capitalistas de domínio e propriedade. Longe de liberar energias críticas, emancipatórias e revolucionárias, ela seria uma droga estética que para­lisa a vontade de resistir; ela seria algo superficial, elitista, para­sitária; numa palavra, prejudicial.

Essa alternância, que há décadas ecoa sobre as cabeças dos poetas e dos leitores, tal como a antífona no ritual católico, pode continuar pelo tempo que se quiser. A aparente contradição que se manifesta nela na verdade apenas mostra os dois lados de uma mesma moeda. De qualquer maneira, os dois coros concordam que os poemas, tal como outras práticas artísticas, são algo extremamente perigoso, pouco importando se perturbam ou se conservam o sistema, o que explica seus gestos exaltados. Acredito que se possa ouvir a ambos com a maior tranquilidade, uma vez que são ainda mais inofensivos que os assuntos cantados e falados, se bem que também sejam bem mais monótonos e desprovidos de ideias que a mais nova canção incluída na lista dos maiores sucessos.” (pp.8-9)

 

 

"(...) Consequentemente, o resultado não é determinado pelo texto e não é determinável. Nesse sentido, o leitor sempre tem razão e ninguém pode lhe tomar a liberdade de usar o texto do modo que lhe for mais conveniente.

Essa liberdade inclui o direito de folhear para a frente e para trás, de saltar passagens inteiras, de ler frases ao contrário, de compreendê-las de forma errada, de remoldá-las, de continuá-las, enfeitando-as com todas as possíveis associações, de tirar con­clusões do texto que não existem nele, de se irritar com o texto, de ficar satisfeito com ele, de esquecê-lo, de plagiá-lo e de jogar o livro em que o texto está impresso num canto a qualquer momen­to. A leitura é um ato de anarquia. A interpretação, principal­mente a única correta, existe para frustrar esse ato.

Sua expressão, consequentemente, sempre é autoritária, produzindo subordinação ou resistência. E quando ocorre a resistência, a interpretação é forçada a impor sua própria autori­dade teórica ou institucional. Como seus pés são de barro — o que ocorre, felizmente, com frequência cada vez maior —, ela tenta tomar emprestado em outros lugares o que lhe falta. O que explica a procura do autor, que é friamente considerado como estando sempre disposto a se tornar cúmplice da interpretação e a trair seu leitor, explicando como instância final o que quis dizer e, assim, como tudo deve ser entendido e ponto-final. “ (p.17)

 

 

LITERATURA COMO INSTITUIÇÃO...

 

“Pois nunca foi muito simples dizer o que constitui a com­petência da literatura. E é bastante fácil se esborrachar em qual­quer tentativa nesse sentido. E bom lembrarmos que no decorrer da história as instituições levam uma vida própria. Houve épocas em que a igreja católica se preocupava principalmente com assun­tos religiosos, que escolas serviam para a transmissão de conheci­mentos e que parlamentos eram soberanos no exercício dos seus poderes. Esses exemplos mostram que as instituições são perfeita­mente capazes de continuar existindo, mesmo tendo perdido de vista, depois de muito tempo, sua meta original. Por esse motivo, eu gostaria de tomar a precaução de delimitar meu tema. O car­rossel ao qual me refiro é a literatura tal como a conhecemos, uma prática que surgiu com a sociedade burguesa, entre cujas in­venções, continuo acreditando, ela seja uma das mais agradáveis.

Por que a burguesia deu origem à literatura? Para que ela serve? A resposta marxista tradicional a esta questão afirma que a literatura deveria servir como instrumento ideológico para uma nova classe dominante, garantindo assim sua hegemonia.” (p.27)

 

 

ELOGIO AO ANALFABETISMO

 

“A meta perseguida pela alfabetização da população nada teve a ver com o Iluminismo. Os filantropos e os sacerdotes da cultura que a defendiam foram apenas cúmplices de uma indús­tria capitalista, exigindo que o Estado colocasse à sua disposição trabalhadores treinados. O lema "O bom, o verdadeiro e o belo", ao qual os editores patriarcais da época Biedermeier tanto se referiam, e que seus descendentes gostam de citar ainda hoje, nunca foi a meta principal. O esforço nunca tratou de abrir um cami­nho para a "cultura escrita" e muito menos de libertar as pessoas para que falassem por si mesmas. O que estava em jogo era um tipo completamente diferente de progresso. Ele consistia em domesticar os analfabetos, esta "classe mais inferior de pessoas", acabando com a imaginação e a teimosia deles, passando-se desde então a explorar não apenas sua força muscular e suas habilidades, como também seus cérebros .

No entanto, antes que se eliminassem os analfabetos, era preciso que eles fossem definidos, localizados e expostos. O con­ceito do analfabetismo não é antigo. Sua invenção pode ser data­da com bastante exatidão. A palavra surgiu pela primeira vez numa publicação inglesa de 1876, espalhando-se depois rapida­mente por toda a Europa. Na mesma época Edison inventou a lâmpada, Siemens, a locomotiva elétrica, Linde, a máquina de refrigeração, Bell, o telefone, e Otto, o motor a gasolina. A relação é óbvia.

Além disso, o triunfo da educação popular na Europa coin­cide com a expansão máxima do colonialismo. Isso tampouco é um mero acaso. Nas enciclopédias da época pode-se ler a afirmação de que a quantidade dos analfabetos "comparada com a população total de um país é uma indicação do estado cultural de uma nação". "Ele é mais baixo nos países eslavos e entre os negros dos Estados Unidos... No patamar superior encontram-se os esta­dos germânicos, os brancos dos Estados Unidos da América e a raça finlandesa." E também não pode faltar a informação de que "os homens, em média", se encontram "acima das mulheres".

Isso tudo deixa de ser uma questão de estatística para se tornar um caso de classificação e de estigmatização. Já é possível reconhecer a figura do subumano por trás da figura do analfabeto. Uma pequena minoria radical monopolizou a civilização e adota atitudes discriminatórias contra todos os que não dançam segun­do suas melodias. A minoria pode ser definida com exatidão. Os homens dominam as mulheres, os brancos os negros, os ricos os pobres, os vivos os mortos. O que os "líderes comunitários" dos tempos guilherminos não desconfiavam deveria ser bastante claro aos seus netos, nós que somos crianças escaldadas: o Iluminismo pode se transformar em perseguição, a civilização em barbárie.

Os senhores perguntar-se-ão por quais motivos lhes estou apresentando problemas que atualmente têm um interesse apenas histórico. Bem, esta pré-história conseguiu nesse meio tempo nos alcançar. A vingança dos excluídos não deixa de apresentar traços de humor negro. O analfabetismo que conseguimos exterminar, como todos sabem, retornou, mas numa forma que nada mais tem de admirável.

Essa figura, que há muito tempo domina o palco da sociedade, é o analfabeto secundário. Ele é uma pessoa de sorte, pois não sofre com a perda de memória; o fato de ele não ter uma mente própria o exime de pressões; sabe dar valor à sua incapaci­dade de se concentrar em alguma coisa; acha que é uma vantagem não saber e não compreender o que está acontecendo com ele. Ele é ativo. E adaptável. Apresenta uma considerável determinação em conseguir se impor. Não precisamos, portanto, nos preocupar com ele. O fato de o analfabeto secundário não ter ideia de que é um analfabeto secundário contribui para seu bem-estar. Ele se con­sidera bem informado, consegue decodificar instruções, pictogramas e cheques e se movimenta num mundo que o isola de qual­quer desafio à sua confiança. É impensável que ele possa ficar frustrado pelo seu ambiente. Afinal de contas, foi este ambiente que o gerou e o formou para garantir sua própria sobrevivência sem problemas.

O analfabeto secundário é o produto de uma nova fase da industrialização. Uma economia cujo problema não é mais a pro­dução mas sim a venda, já não necessita de um contingente disci­plinado de reserva. Ela precisa de consumidores qualificados. Na medida em que os clássicos trabalhadores de produção e fun­cionários de escritório se tornam supérfluos, o mesmo ocorre com o treinamento rígido ao qual eles eram sujeitados, e o analfabetismo passa a ser uma algema da qual é necessário se livrar o mais depressa possível. Simultaneamente com a formulação desse problema, nossa tecnologia também desenvolveu a solução ade­quada. A mídia ideal para o analfabeto secundário é a televisão.

E provável que a maioria das teorias que foram formuladas sobre esse fenómeno estejam erradas. Eu sei do que estou falando, porque há menos de vinte anos atribuí maravilhosas possibili­dades de emancipação à mídia eletrônica. Uma tal esperança, ape­sar de não ser fundamentada, pelo menos tinha a vantagem da ousadia. Não se pode afirmar o mesmo das reflexões de um sociólogo norte-americano, que atualmente são motivo de muitas discussões:

Quando uma população deixa que sua atenção seja desvia­da por trivialidades, quando a vida cultural é redefinida como uma série interminável de entretenimentos, quando a discussão pública se torna uma forma de comunicação infantil, quando, resumindo, um povo se transforma em espectador e seus assuntos públicos em números de varie­dades, uma nação se encontra em perigo — a morte da cul­tura torna-se uma clara possibilidade .

Apenas a terminologia se modificou; nos demais aspectos, os argumentos do norte-americano, em 1985, são idênticos aos do suíço que, em 1795, publicou um Apelo à Nação, visando alertá-la para o colapso iminente da cultura. E claro que a argumentação central de Postman está correta: a televisão é apenas bobagem com molho. Estranho é apenas o fato de ele ver isto como sendo uma objeção. A televisão deve seu charme, sua irresistibilidade, seu sucesso justamente à sua imbecilidade. Um outro tique que pode ser observado nos apologistas da cultura da leitura é ainda mais estranho. Saber em qual mídia a imbecilidade é produzida parece ter importância máxima para eles; se ela aparece impressa em preto no branco, então obviamente trata-se de um tesouro cultural; mas caso for disseminada via antenas ou cabos, então "a nação está em perigo". Bem, todos os que acreditam cegamente na crítica cultural são responsáveis pelo que fazem.

(…)

Por outro lado, pode-se presumivelmente constatar que o projeto histórico do Iluminismo tenha falhado nesse sentido. No retrospecto, o slogan "Cultura para todos" parece ser bastante cómico. Menos ainda temos à vista uma cultura sem classes. Pelo contrário, podemos prever uma situação na qual existam ambientes culturais cada vez mais acentuadamente diferenciados, que não conheçam mais um espaço público comum. Quero até arriscar a afirmação de que a população se dividirá em castas culturais cada vez mais distintas. (E claro que estou usando este termo de forma descritiva, sem qualquer implicação sistemática.) Essas castas já não podem mais ser descritas com a ajuda do modelo marxista tradicional, segundo o qual a cultura dominante é a cultura da classe dominante. Ocorre um distanciamento cada vez maior entre a posição económica da classe e sua consciência.

Na maior parte dos casos as principais posições na política e na economia são ocupadas pelos analfabetos secundários. Nesse sentido, basta uma simples referência ao atual presidente dos Estados Unidos e ao atual chanceler da Alemanha. Por outro lado, neste país, tal como nos Estados Unidos, pode-se encontrar, sem qualquer esforço, bandos enormes de motoristas de táxi, de tra­balhadores avulsos, vendedores de jornais e beneficiários do sistema de previdência social que, por causa de sua aguda conscientização dos problemas, seus padrões culturais e seus amplos conhe­cimentos, teriam avançado consideravelmente em qualquer outra sociedade. Mas até uma tal justaposição deixa de atingir o alvo pretendido — o fato de que não se pode mais fazer atribuições desprovidas de ambiguidade; pois também podem ser encontra­dos zumbis entre professores desempregados e funcionários no escritório do presidente da república que, além de saberem ler e escrever, também são capazes até de pensar de modo produtivo.

Mas isso também significa que, em questões de cultura, o determinismo social já deixou de ter importância. O assim chamado privilégio educacional perdeu seu aspecto assustador. Se os pais de ambos são analfabetos culturais, o filho do casal proeminente deixa de ter qualquer vantagem sobre o filho dos operários. No futuro, a casta cultural à qual se pertencerá irá depender muito mais da escolha pessoal que da origem que se tenha.

De tudo isso, chego à conclusão de que a cultura no nosso país se depara com uma situação completamente nova. A reivin­dicação de validade universal, sempre declarada mas nunca imple­mentada, pode ser esquecida. Os governantes, a maioria dos quais são analfabetos secundários, perderam qualquer interesse por ela. A consequência é que ela já não precisa e nem pode servir a qual­quer interesse governante. A cultura não fornece mais legitimação a coisa alguma. Ela está fora do âmbito das leis, o que também é uma forma de liberdade. Uma tal cultura precisa se manter a par­tir dos seus próprios recursos, e quanto antes compreender isso, melhor será.

Ah, e outra coisa: a questão de saber se os senhores home­nagearam um anacronismo — quase nos esquecemos disso! No que diz respeito à literatura, acredito que ela esteja sendo menos afetada pelas mudanças que esbocei do que se poderia pensar. Na realidade, ela sempre foi um tema para uma minoria. A quanti­dade dos que se dedicam a ela provavelmente se manteve cons­tante no decorrer dos dois últimos séculos. O que mudou foi ape­nas a formação desse grupo. Já não é mais uma marca de privilé­gio de classe se interessar por ela, mas também não é mais uma obrigação de classe fazer isso. A vitória do analfabetismo secundário somente pode radicalizar a literatura. Ela provoca uma situação na qual a leitura será puramente voluntária. Assim que essa leitura deixar de ser um símbolo de status, um código social, um programa educacional, apenas aqueles que não conseguem se manter longe da literatura travarão conhecimento com ela.

E possível que haja os que deploram tal situação. Não tenho a menor vontade de fazer isso. Afinal de contas, as ervas daninhas também são uma minoria e todos os jardineiros sabem que é muito difícil exterminá-las. A literatura continuará proliferando, enquanto mantiver uma certa dose de tenacidade, de astúcia, de habilidade de se concentrar, de obstinação e de boa memória.” (pp.47-53)

 

 

A MÍDIA ZERO...

 

“A posição zero é a força da televisão, não sua fraqueza. E ela que representa seu valor de uso. O espectador liga o aparelho para se desligar. (Aliás, por esse motivo, aquilo que os políticos con­sideram como sendo a política é absolutamente inapropriado para a televisão. Se bem que o lamentável ministro imagine estar influ­enciando as opiniões e ações do espectador, o viscoso vazio de suas declarações serve apenas para satisfazer a necessidade que o públi­co tem de ficar longe de qualquer tipo de significado.)

Em oposição a isso, temos sempre uma espécie de pertur­bação de imagem toda vez que algo semelhante a um conteúdo aparece no fluxo da transmissão, alguma notícia verdadeira ou até mesmo um debate capaz de trazer consigo lembranças do mundo real. O espectador fica espantado, esfrega os olhos e estende a mão para pegar o controle remoto.

Essa utilização extremamente dirigida precisa ser final­mente levada a sério. A televisão é empregada primeiramente como um método bem definido de agradável lavagem cerebral; ela serve como higiene pessoal, como automedicação. A mídia zero é a única forma universal e amplamente distribuída de psicoterapia. Seria absurdo questionar sua necessidade social. Qualquer um que queira aboli-la faria bem em examinar atenta­mente as alternativas disponíveis. Em primeiro lugar, é preciso considerar o consumo de drogas, da pílula de dormir à cocaína, do álcool aos beta-bloqueadores, dos tranquilizantes à heroína. A televisão, no lugar dos produtos químicos certamente é uma solução mais elegante. Se pensarmos nos custos sociais e nos assim chamados "efeitos colaterais", é preciso admitir que os usuários da mídia zero tomaram uma sábia decisão — isso sem mencionar todas as demais soluções possíveis, como a fuga para a loucura motorizada das estradas, o crime violento, a psicose e o suicídio.

Para aquele que considera essa argumentação ex-negativo lúgubre demais, existe ajuda. Basta que ele direcione seu olhar para longe dos fatos desagradáveis e em direção às esferas superio­res e procure aconselhamento na mais antiga filosofia da humanidade, que voltou a ser tão popular nos dias de hoje. Pois quando nossa concentração se encontra no ponto mais elevado — essa é a conclusão incontestável que se pode extrair de qualquer livro de bolso sobre assuntos místicos —, ela deixa de ser diferenciável da desatenção e vice-versa: a mais extrema dispersão se transforma numa absorção hipnótica. Nesse sentido, um chu­maço de algodão colocado diante dos nossos olhos se aproxima bastante da meditação transcendental. A veneração quase reli­giosa, gozada pela mídia zero, também poderia ser facilmente explicada dessa forma: ela representa a aproximação tecnológica do nirvana. O televisor é a máquina budista.

Decisivamente, este é um projeto utópico que como todos os projetos utópicos, dificilmente poderá ser concretizado sem que sobrem alguns resquícios terrestres nele. Somente com difi­culdades a pessoa adulta atingirá o estado de completo esqueci­mento de sua própria personalidade, algo que é concedido ao bebé. O adulto desaprendeu a empregar seus aparelhos de per­cepção sem interpretar tudo o que enxerga. Independentemente de querer isso ou não, ele tende a produzir significados até mesmo onde não existe a mais remota possibilidade de eles serem encon­trados. Essa focalização involuntária interfere constantemente com o uso da mídia zero. Em caso de dúvida, sempre posso afir­mar que, afinal de contas, não sou um zumbi, e que naquilo que estou enxergando sempre existe alguma coisa a ser vista, uma ou outra coisa definida, algo semelhante aos restos fumegantes de um conteúdo. Consequentemente, é inevitável que até mesmo o teles­pectador mais experiente, de quando em quando, sucumba a uma tal mistificação.” (pp.80-81)

 

 

BILHÕES DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS!

 

"«Os sonhos de Lorde Keynes não frutificaram. Ao invés de se tornarem o fundo dos fundos e o banco dos bancos, o FMI e o BIRD tiveram de se acostumar a papéis mais modestos: os de ofici­nas de manutenção e de tapa-buracos para um sistema extrema­mente instável e combalido. Não houve uma reconstrução; ao con­trário, tivemos de despender todas as nossas energias remendando o que já existe. Os governos, todos tão preocupados com a sobera­nia, simplesmente não permitiriam uma mudança fundamental da situação — desconsiderando o fato de os políticos serem ignorantes demais para reconhecer a tempo os perigos enfrentados pela econo­mia mundial.«

«Consequentemente, as funções do Fundo e do Banco, como as do corpo de bombeiros, não podem ser definidas senão negativamente. Limitam-se a evitar o pior. Seus grandes momen­tos são as crises: instabilidades monetárias, crises de petróleo, catástrofes de desenvolvimento, como na zona do Sahel, avalanches de dívidas, como as que ameaçam o Terceiro Mundo, tudo isso contribui para que os dois irmãos adquiram novas influências e novos poderes. Em tais situações, eles são indispen­sáveis. Nós existimos para acabar com as crises, mas sem crises ninguém nos daria a menor importância. Se isso não soasse tão cínico, poderíamos dizer que necessitamos de catástrofes do mesmo modo que a polícia secreta necessita de terroristas. Creio, no entanto, que não há motivos para preocupações. Quem lida com coisas negativas, jamais ficará sem trabalho.»

 

 

Pelo menos uma vez no decorrer de suas histórias, os dois monstros obtiveram um sucesso positivo. Em setembro de 1967, numa sessão conjunta do Fundo Monetário e do Banco Mundial, criou-se algo inteiramente novo, uma "facilidade" muito especial: o chamado Direito Especial de Saque (SDR).

(…) Pois, de forma alguma, o Direito Especial de Saque significa dinheiro vivo.

Será que é mesmo dinheiro? Seus inventores, os cavalheiros do FMI, riem evasivamente quando se faz uma pergunta dessas. Não, não é possível afirmar que o SDR é uma moeda. Não é um meio legal de pagamento. Seria, antes, uma unidade de cálculo. Mas não só isso! Afinal, a liquidez é criada pelo SDR. E um substituto de dinheiro, metade dinheiro contábil, metade linha de crédito. Um híbrido. Há que se permanecer aberta a questão de sua verdadeira natureza. Impossível decidir se é crédito ou di­nheiro, se a zebra é preta com listras brancas ou branca com lis­tras pretas. Melhor ficar com a formulação oficial que, como sem­pre, se mantém obscura; segundo ela, trata-se de um "meio inter­nacional de administração de reservas", que circula de acordo com determinadas regras extraordinariamente complicadas.

E claro que o SDR não assume forma de moedas ou notas. Ele existe apenas nos computadores dos bancos centrais. Além deles, existem vinte e duas outras instituições de natureza arca­na que se utilizam do SDR, como, por exemplo, o Banco de Compensações Internacionais (Bank for International Settlement, ou BIS), na Basileia, uma espécie de clínica particular discreta para bancos centrais na qual, ao invés de ricas herdeiras, submetem-se as moedas em dificuldades a salvadoras intervenções ou cirurgias plásticas.

Resumindo, o Direito Especial de Saque é um "meio". A conotação espírita da palavra não é totalmente casual. Cerca de 21,4 bilhões de SDRs foram "criados" no decorrer dos últimos vinte anos, correspondendo, na época, de acordo com a taxa de câmbio, a uma soma de aproximadamente 50 bilhões de dólares.

Criados? Realmente, trata-se de uma creatio ex nihilo, de um milagre, que lembra a maravilhosa multiplicação dos pães. Onde antes a maré estava baixa, corre agora um fluxo de crédito. Bilhões são "autorizados", "designados", "sacados". Seriam os ca­valheiros de Washington alquimistas, descobridores da pedra filosofal? Esta é uma questão quase teológica e, como todas as questões teológicas, não permite uma resposta exata.

(…)

Dados codificados, curvas estatísticas, conceitos esotéricos; uma oscilação quase irreal, distante dos fatos crus; aparentemente os dois monstros atuam nas esferas mais elevadas da abstração. E, no entanto, tudo que se delibera, sopesa, vota e decide nessas salas fechadas da Rua 19 tem consequências palpáveis e extremamente concretas.

Em Xian (China), são instalados pela primeira vez equipa­mentos ferroviários automáticos. Na Zâmbia, o preço da farinha de milho, elemento essencial para alimentação nativa, sobe 120% devido à eliminação dos subsídios estatais; quinze pessoas mor­rem durante os distúrbios provocados por tal medida. A cons­trução da represa Volta, em Gana, trouxe alterações climáticas; desde o término de sua construção registram-se estiagens no norte do país. A cidade de Pusan (Coreia do Sul) receberá um novo porto para containers. Mais de dois milhões de habitantes do vale Narmada (índia) serão deslocados. Uma única represa desse gigantesco projeto inundará 350 mil hectares de florestas. Na Argentina, o preço das passagens de ônibus e trens é duplicado. Cento e sessenta mil pessoas de Burundi passam a ter finalmente água encanada. Uma multidão enfurecida saqueia supermercados em São Paulo. O ministro da Fazenda é forçado a renunciar. Seguindo o conselho dos especialistas, a Costa do Marfim aposta tudo numa única carta: o incremento da produção agrícola para exportação; advém um colapso nos preços mundiais do mercado de cacau, café e óleo de coco; o governo está falido; milhares de fun­cionários públicos devem ser demitidos. Nas farmácias de Khartoum não se encontram mais remédios importados. Constroem-se na Jordânia escolas técnicas e no Zaire, estradas. Mais de três milhões de pessoas terão de ser transferidas para outros locais na Indonésia; como resultado disso, calcula-se que dois mi­lhões de hectares de florestas tropicais serão destruídos. Créditos do governo boliviano são comercializados a 11% de seus valores nominais. Governos caem, países em desenvolvimento penetram no mercado mundial, nações se declaram falidas, e tudo isso não teria acontecido, ou teria acontecido de modo diferente, se o Fundo e o Banco não tivessem participado das ações.

 

 

Ninguém os procura por vontade própria. Quando um país está em dificuldades com sua balança de pagamentos, o Fundo ajuda a curto prazo com somas que chegam a perfazer bilhões; a princípio, apenas por alguns meses e, em casos extremos, por alguns anos. Por outro lado, o Banco Mundial, a maior agência de ajuda ao desenvolvimento do mundo, fornece a praticamente todos os países em desenvolvimento créditos a longo prazo para determinados projetos claramente definidos e para "medidas de ajuste estrutural".

Nem o Fundo nem o Banco dão algo de presente. Seus empréstimos implicam juros e devem ser devolvidos nos prazos combinados. Por motivos que serão mencionados mais adiante, a moral de pagamentos dos devedores está além de qualquer crítica. (Em 1986, os fluxos de retorno de capital do FMI foram na ordem de quatro bilhões de dólares superiores à ajuda financeira concedida.)

Todavia, o preço pela ajuda exigido por esses dois monstros não pode ser expresso em números. Um banco comercial quer ter garantias ao emprestar dinheiro. Mas Estados e nações não podem ser penhorados ou executados. Consequentemente, os dois irmãos amarram à sua disposição de ajuda obrigações e condições que afetam substancialmente a economia política dos países recebedores. O termo técnico exato é "condicionalidade". Em sua forma mais pura, é o Fundo Monetário que prescreve esse remé­dio amargo. Na maior parte das vezes, o paciente duvida da efi­ciência do que lhe foi recomendado. E isso não é surpreendente, porque quando a recomendação é traduzida da linguagem secreta dos augures para termos corriqueiros, a receita acaba por se resumir a alguns lugares-comuns, que nenhum dos afetados gosta de ouvir: "Não se pode viver permanentemente acima das próprias possibilidades! Vocês precisam apertar os cintos!"

Qualquer pessoa que ouça tudo isso mais atentamente reco­nhecerá no fundo a voz da ortodoxia, da doutrina pura. Ela prega contra o protecionismo e a favor da livre competição, contra gas­tos estatais excessivos e a favor da estabilidade dos valores mone­tários, contra a intervenção do Estado e a favor da iniciativa pri­vada. Em suma, ela advoga um capitalismo puro, tal como se co­nheceu somente nos róseos tratados do século XIX, mas que não ocorre na realidade.” (pp.90-95)

 

Mediocridade e Loucura e outros ensaios de Hans Magnus Enzensberger

 

publicado por C. às 19:27
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