Domingo, 17 de Fevereiro de 2013

Nas horas que me pertencem

 

 

 

 POETA:

Para isso terás de me trazer

Os anos do meu próprio devir,

Quando uma fonte de canções a nascer

Brotava em mim sem se extinguir,

Quando névoas me escondiam o mundo

E inda o botão milagres prometia,

Quando eu as mil flores colhia

Que enchiam o vale até ao fundo.

Não tendo nada, bastante tinha então:

A sede de verdade e o gosto da ilusão.

Dá-me de novo as paixões sem temor,

A funda e dolorosa felicidade,

Do ódio a força, o poder do amor:

Traz-me de volta a minha mocidade! (p.35)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MEFISTÓFELES:

Já que outra vez, Senhor, a nós desceste,

Para saber o que há por cá de novo,

E como sempre com bons olhos me viste,

Assim me vês agora entre o Teu povo.

Perdão, que altos discursos não sei ter,

E pela assembleia vou ser escarnecido;

Meu tom patético far-te-ia rir,

Se o riso não tivesses já esquecido.

De sóis e mundos nada sei nem direi;

Que os homens se atormentam, disso sei.

O pequeno deus do mundo não mudou,

Desde o dia primeiro mui singular ficou.

Viveria melhor, se não fosse enganado

Pelo lampejo da luz com que o haveis dotado;

Razão lhe chama, e serve-lhe afinal

Para ser mais bicho que qualquer animal.

Parece-me, perdoe-me Vossa Graça,

Uma dessas cigarras que esvoaça,

Pernilonga, armada em saltitão,

Entoando na erva sempre a mesma canção.

Se ao menos se ficasse pelo prado!

Mas quer meter o nariz em todo o lado!  (p.40)

 

FAUSTO:

Aqui estou eu: Filosofia,

Medicina e Jurisprudência,

E para meu mal até Teologia

Estudei a fundo, com paciência.

E reconheço, pobre diabo,

Que sei o mesmo, ao fim e ao cabo!

Chamam-me Mestre, Doutor, sei lá quê,

E há dez anos que o mundo me vê

Levando atrás de mim a eito

Fiéis discípulos a torto e a direito –

E afinal vejo: nosso saber é nada!

E de ficar com a alma amargurada.

Sei mais, é claro, que todos os patetas,

Mestres, doutores, escribas e padrecas;

Nem escrúpulos nem dúvidas eu temo,

E não receio nem Inferno nem demo –

Mas não me resta réstia de alegria,

Nem me iludo com vã sabedoria,

Nem creio que tenha nada a ensinar

À humanidade, que a possa salvar.

Também não tenho bens nem capitais,

Nem glórias ou honras mundanais.

Até um cão desta vida fugia!

Por isso me entreguei à magia,

Para ver se por força da mente

Tanto mistério se abre à minha frente;

Para que não tenha, com o fel que suei,

 De dizer mais aquilo que não sei;

Para conhecer os segredos que o mundo

Sustentam no seu âmago mais fundo,

Para intuir forças vivas, sementes,

E largar as palavras indigentes.

Ah, viesses tu, doce luar,

Envolver minha última dor!

Tu, que por noites adentro

Esperei a esta banca, atento:

Sobre a livralhada babilónica

Vinhas, amiga melancólica!

Ah, pudesse eu por esses cumes

Andar sob teus brandos lumes,

Pairar em grutas com seres alados,

Ao teu crepúsculo errar pelos prados,

E, livre das névoas do saber,

Em teu orvalho renascer! (pp. 49-51)

 

MEFISTÓFELES:

Singela é a verdade que te digo.

Se esse pequeno e néscio mundo, o Homem,

Geralmente por um todo se toma –

Eu sou parte da parte que a princípio tudo era,

Uma parte da treva que a luz gera,

A luz altiva que agora, em acesa luta,

À luz altiva que agora, em acesa luta,

À Noite-mãe o primado disputa;

Mas em vão, pois embora esforçada,

Ela aos corpos permanece agrilhoada.

Dos corpos irradia, beleza aos corpos dá,

Um corpo basta para travar-lhe a jornada;

E a minha esperança é que, não tarda nada,

Também ela com os corpos morrerá. (p.90)

 

FAUSTO:

Em nenhum hábito deixarei de sentir

A dor da vida estreita que levar

Sou muito velho para só querer brincar,

E muito novo para sem ânsia existir.

Que tem o mundo hoje para me oferecer?

A renúncia! Deves renunciar:

É essa a eterna ladainha

Que a todos nos ouvidos ecoa

E que, uma vida inteirinha,

Uma voz rouca sem fim apregoa.

Acordo de manhã numa agonia,

E lágrimas amargas só me traz

O tempo que decorre, e em cada dia

Nem um desejo só me satisfaz;

Até do prazer o antegozo

Me estraga com espírito invejoso,

E do sopro criador da alma activa

Com mil esgares hostis também me priva.

E depois, quando a noite nos envolve

E eu no leito caio, angustiado,

Também então a inquietação revolve

Os sonhos que me deixam aterrado.

A divindade que em meu peito mora

Pode agitar-me a alma até ao fundo;

Em minhas forças manda, mas lá fora

Não tem poder sobre as rodas do mundo.

E assim a existência me é um peso.

A morte ansiada, a vida um ódio imenso. (p. 98-99)

 

FAUSTO:

Sinto que em vão acumulei em mim

Toda a riqueza do humano entendimento,

Mas quando paro e me sento, por fim,

Não jorra da minh’alma novo alento;

Nem a altura de um cabelo me elevei,

Nem do infinito mais me aproximei. (p.108)

 

INQUIETAÇÃO:

Aquele em quem eu me afundo,

De nada lhe serve o mundo;

Vive em treva permanente,

Sem aurora nem poente,

Por fora normal parece,

Dentro dele tudo escurece,

Os maiores tesouros que há,

Frio, ele os desprezará.

Cisma em sorte ou desventura,

Morre à míngua na fartura;

Coisa má ou alegria

Fica sempre p’ra outro dia;

Só no futuro a pensar,

Nunca nada há-de acabar. (p.538)

 

FAUSTO de Johann W. Goethe, trad. João Barrento, Relógio D’Água

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publicado por C. às 19:53
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