Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

#3

"Uma das minhas manias, e das mais inofensivas, como vão verificar, era a dis­tinção, talvez um nadinha bizantina talvez não, entre editores e fabricantes, indus­triais do livro. E mantenho, sem esquecer que nisto, como em tudo o mais, os abso­lutos são impossíveis. Assim, e reportan­do-me apenas aos tempos em que lidava mais de perto com essas preocupações, as praticava, na marginalidade das minhas posses e das minhas predilecções ou fobias, considerava a «Seara Nova», a «In­quérito»,   a   «Cosmos»,   a   «Ulisseia»,   a «Tavares   Martins»,   do   Porto,  a   «Almedina», de Coimbra, como editores; a «Europa-América», a «Bertrand», a «Livros do Brasil», como indústria do livro. Bastava-me uma olhadela nos respectivos catá­logos.

 

Nunca se poderia menosprezar a ac­tividade destes empresários do livro (aqueles que citei e muitos outros), por­que também se dedicavam a lançar obras só por mero intuito comercial, êxitos de oportunidade, sucata de toda a es­pécie. O que caracteriza, para mim, o editor era a sua relutância, um arrepiado pudor, chamemos-lhe assim, em meter mãos nessa massa de escrita merce­nária. Quanto ao papel cultural da Bertrand, com o seu riquíssimo fundo, os seus autores —o Herculano, por exemplo — quem o vai negar? e quem diz Bertrand, diz qualquer dos outros.

 

Mas   era   exclusivamente   de   Mestre Eduardo   Salgueiro   e   da   sua   Inquérito (Editorial Inquérito, Lda. Poucos saberão o nome do segundo sócio, além de Sal­gueiro;   o   actor  Rogério   Paulo,   com   a quota mínima de cem escudos), que lhes queria falar. Vai ser-lhe prestada depois de amanhã uma homenagem. A comissão promotora reúne alguns dos nossos melhores valores. Mais ali estariam, se não os tem levado a Mofina: Alves Redol, Régio, Casais Monteiro, por exemplo.

 

Este obreiro de cultura, com uma ca­pacidade de trabalho espantosa, um dina­mismo pessoal, uma coerência militante, um apurado faro, foi, em muitos sentidos, um  inovador do  livro  em   Portugal.   Por isso   lhe  chamo   Mestre  e,   sem  lisonja, sempre  como  tal  o  considerei  e tratei, numa   convivência   assídua,   quando   lhe dava edições minhas a fazer, na Libânio da Silva, a sua tipografia, ali ao Fala-Só; quer como distribuidor de títulos meus; também, ainda, como seu colaborador, em traduções (traduzi o Tchekov, sem saber . uma palavrinha de russo, com sete ver­sões à frente... e a dificuldade estava na escolha, adivinhar qual delas seria a mais fiel: versões italiana, outra inglesa, algumas portugue­sas...) e revisões tipográficas.

 

Um livro marca Inquérito, a qual dis­punha de uma equipa de alto nível, tra­dutores corno Casais, José Marinho, etc.; um capista, como  Fred Kradolfer,— era sempre uma garantia. Colecções baratís­simas,   como   as   melhores   novelas   dos melhores novelistas, os cadernos Inqué­rito,   a   quatro  paus,   foi   como   começa­ram;  as obras  completas,  de Jack  London, de Mark Twain,  etc.;  as obras em fascículos, os folhetos de António Sérgio, é toda uma actividade empolgante, arra­sadora para um homem só, e apenas uma excelente  secretária,  a  D.   Helena,  dois empregados, o Leandro, o (esqueceu--me., .)• Mestre Salgueiro, primeiro na Antero do Quental, já não é do meu tem­po, finalmente na Travessa da Queimada, punha a sua máquina a girar, com uma escrita acho que inexistente, a caixa ou cofre um envelope da casa, com muitas notas dentro.

 

Um esplêndido ficheiro, também. Em cidadezinhas da Província, biblioteca de advogado, médico, profissões liberais ou­tras, classe média e da Oposição, lá es­tavam — e às vezes por abrir... era eu quem estreava os livros — edições da Inquérito.

 

Com  a  sua  bela cabeça leonina,   de lutador, mas também de fulminante ama­dor do belo sexo — revirava-a, e conti­nua, com saias à vista —, Mestre Eduardo Salgueiro criou e manteve, através de mil dificuldades e perseguições,  preso  pela PIDE, com obras apreendidas (lembro: «O Caminho Fica Longe», primeiro romance de Vergílio Ferreira; acho que por ter es­candalizado os coronéis censores, já que punha estudantes universitários em conúbio   sexual   pré-matrimonial,   e   se   trago , isto à compita é para deitar a morrer de riso os nossos escolares do preparatório, talvez da primária), um estilo de edi­tar e de estar na trincheira da Cultura. Um obreiro de Cultura, pois. E coube a dois escribas, ditos «marginais» ou «mal­ditos», Manuel Grangeio Crespo e eu, no l Congresso de Escritores, numa tese so­bre traduções, invocarem o nome de Eduardo Salgueiro e solicitarem à assis­tência uma salva de palmas, unanime­mente correspondida."

 

 

DIÁRIO  POPULAR,  de 8 de  Novembro de 1983

 

Luiz Pacheco-"Um Obreiro de Cultura" (Textos do Barro, Contraponto)

 

Notas mentais:

1-O país não mudou assim tanto.

2-É impossível não gostar de tipos assim (livres)

 

publicado por C. às 19:47
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