Segunda-feira, 15 de Abril de 2013

d' O Anjo do Desespero

POEMA ANTIGO

 

De noite atravessando o lago a nado o momento

Que te põe em causa Já não há outro

Finalmente a verdade Que tu mais não és que uma citação

De um livro que não escreveste

Podes escrever uma vida para negar isto na tua

Fita de máquina descorada O texto lê-se à transparência

(p.25)

 

 


 

 

Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã. (p.51)

 

O Anjo do Desespero de Heiner Müller, trad. João Barrento, Relógio D’Água

publicado por C. às 08:55
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