Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013

Nas horas que me pertencem

«Heliogabalo tem desde muito cedo o sentido da uni­dade que está na base de todos os mitos e de todos os nomes; a decisão de tomar o nome de Elagabalus, o empenho que põe em fazer esquecer a sua família e o seu primeiro nome, e em identificar-se com o deus que os cobre, é uma primeira prova do seu monoteísmo mágico, que não é somente verbo, mas acção.

Em seguida, introduz esse monoteísmo em tudo o que faz. E é a esse monoteísmo, a essa unidade de tudo o que empece o capricho e a multiplicidade das coi­sas, que eu chamo, eu, anarquia.

Ter o sentido da unidade profunda das coisas é ter o sentido da anarquia — e do esforço a fazer para redu­zir as coisas levando-as à unidade. Quem tem o sentido da unidade tem o sentido da multiplicidade das coisas, da poeira de aspectos que há que atravessar para se poder reduzi-las e destruí-las,

E Heliogabalo, como rei, ocupa o melhor lugar pos­sível para reduzir a multiplicidade humana, e, pelo san­gue, pela crueldade, pela guerra, levá-la ao sentimento da unidade.» (pp.47-48)

 

 

 

«Quem remexe nos deuses das religiões antigas e lhes mistura os nomes numa cesta com um pau de trapeiro; quem se ataranta com a multiplicidade desses nomes; quem, cavalgando duma terra a outra, estabelece a simi­laridade dos deuses e as raízes de uma etimologia idên­tica para os nomes de que os deuses são feitos; e, passada revista a todos esses nomes, a todas as indica­ções das suas forças, a todos os sentidos dos seus atributos, se põe a gritar contra o politeísmo dos antigos, e lhes chama Bárbaros, é ele próprio um Bárbaro, isto é, um Europeu.

Se os povos, ao longo do tempo, refizeram os deu­ses à sua imagem; se extinguiram a fosforecente ideia dos deuses e, idos dos nomes onde os encerravam, se revelaram impotentes para subir, mediante os contac­tos concêntricos das forças, a magnetização aplicada e concreta das energias, até à descarga inicial, até à reve­lação do princípio que esses deuses querem revelar, devemos acusar historicamente e fragmentariamente esses povos, e não os princípios, e menos ainda a ideia superior e total do mundo que o Paganismo quiz restituir-nos. E como no fundo as ideias só são ajuizá­veis pela forma que as tem, pode dizer-se que, tomado no tempo, o desenrolar inumerável dos mitos a que cor­respondem, nos subterrâneos atafulhados dos templos solares, as sobreposições sedimentarias de deuses, dei­xou de dar-nos ideia da formidável tradição cósmica que está na origem do mundo pagão, cujo espírito de libertação sem imagens ou cuja misteriosa comoção de imagens, vinda de um gesto verdadeiramente sagrado, não pode ser-nos dada pelas danças dos histriões orien­tais ou pelos truques dos fakirs que vêm exibir-se nos teatros do ocidente.

O espírito sagrado é aquilo que fica colado aos prin­cípios com uma força de identificação sombria que se assemelha à sexualidade—à sexualidade no plano mais próximo dos nossos espíritos orgânicos, dos nossos espí­ritos obstruídos pela espessura da queda. Esta queda que eu pergunto se representará o pecado. Porque no plano onde são as coisas, esta identificação chama-se Amor, sendo uma das suas formas a caridade universal, e a outra, a mais terrível, é o sacrifício da alma, isto é, a morte da individualidade

Fomos nós, foi a nossa Europa cristã, e a sua His­tória, que fabricou todas estas lutas de deuses contra deuses e de forças contra forças, enquanto os deuses viam fugir-lhes dos dedos as forças que deviam minis­trar; esta separação da força e do deus, com o deus reduzido a uma palavra que cai, a uma efígie votada às mais odiosas idolatrias; o rumor sísmico e o abalo material nos céus; a forma de fechar o céu no céu e a terra sobre a terra; as casas e os territórios do céu passando de mão em mão e de cabeça em cabeça e, por seu turno, cada homem compondo e recompondo os deuses na sua mente; a ocupação provisória do céu, ali por um deus e pela sua raiva, além pelo mesmo deus transformado; a sucessão da detenção de poderes, a que se seguem, como o latido perpétuo de um espasmo, de baixo para cima e de cima para baixo, outras deten­ções de poderes; a respiração das faculdades cósmicas, semelhantes, no plano superior, às faculdades soterra­das e incultivadas que dormem na nossa individuali­dade separada — e a cada faculdade corresponde um deus e uma forma, e nós somos o céu sobre a terra e eles transformaram-se em terra, a terra do absoluto separada; — esta instabilidade tempestuosa dos céus, a que nós chamamos Paganismo, e que por vezes nos cega, nos chicoteia com a sua verdade — fomos nós que fizemos tudo isso.» (pp.53-55)

 

Heliogabalo ou o Anarquista Coroado de Antonin Artaud, trad. Mário Cesariny, assírio & alvim

publicado por C. às 13:38
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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2013

Nas horas que me pertencem

«Do ponto de vista geográfico, continuava activa a franja de barbárie que limitava o chamado Império de Roma, e no Império de Roma há que meter a Grécia, que foi quem inventou historicamente a ideia de bar­bárie. E deste ponto de vista somos nós, nós, gentes do Ocidente, os dignos filhos dessa mãe estúpida, por­que, aos nossos olhos, somos nós os únicos civilizados, e tudo o mais, que é a medida da nossa universal igno­rância, se identifica com a barbárie.

E no entanto o que há a dizer é que todas as ideias que permitiram aos mundos Romano e Grego não soço­brar imediatamente, não caírem a pique numa cega bes­tialidade, vieram exactamente dessa franja bárbara; o Oriente, longe de transmitir as suas doenças e o seu mal-estar, permitiu que não se perdesse a Tradição. Os princípios não se inventam, não se descobrem, conservam-se, comunicam-se; poucas operações serão tão difíceis como a de conservar a noção, a um tempo dis­tinta e difusa no organismo, de um princípio universal.

Isto para salientar que do ponto de vista metafísico o Oriente esteve sempre em estado de ebulição tran­quilizadora; que nunca é através dele que as coisas se degradam; e que no dia em que nele a pele de chagrém dos princípios for seriamente enrugada, então toda a face do mundo engelhará, todas as coisas se abeirarão do seu fim; e esse dia deixou de parecer-me distante.»

 

Heliogabalo ou o Anarquista Coroado de Antonin Artaud, trad. Mário Cesariny, assírio & alvim, p. 16.

publicado por C. às 13:32
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