Segunda-feira, 29 de Abril de 2013

este ano todos os caminhos vão dar a(o)...FAUSTO

 

 

 

(depois da recente (re)leitura do "Fausto", numa tradução extraordinária de João Barrento, torna-se bastante complicado seguir esta versão/visão do Sokurov- muito aquém das expectativas)


 

 ©Pedro Macedo - Framed Photos
TNDM II

FAUSTO- adapt. de Fausto, de Fernando Pessoa e Doutor Fausto, de Christopher Marlowe
9 MAI - 2 JUN 2013

 

 

 

publicado por C. às 20:56
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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2013

Scheiße...Ich spreche nicht deutsche (ou da tradução)

 

COMEÇA aqui a segunda parte, da qual nos basta sublinhar o plano geral.

Desde o momento em que o desespero de amor não levou Fausto a repelir a exis­tência; desde que a curiosidade científica sobreviveu àquela morte do seu coração dilacerado, a tarefa de Mefistófeles torna-se mais dificil, e ouvi-lo-emos queixar-se com frequência. Fausto refrescou a alma e acal­mou os sentidos no seio da natureza viva e das har­monias divinas da criação sempre tão bela. Resolveu-se a continuar a viver e a voltar para o meio dos homens. É no ponto mais esplêndido da multidão humana que ele vai descer desta vez.

A acção transporta-se para uma corte  imperial da Idade Média.   As  personagens que  aparecem  não  têm  outros nomes que não os de «imperador», «chanceler», «marechal»,etc. O imperador, sentado entre os seus conselheiros, pergunta onde está o seu jogral. Um pajem vem dizer-lhe que o pobre homem se deixou cair ao descer uma escada. Está morto? Está embriagado? Não se sabe. Ele não se mexe.

Um segundo pajem vem logo anunciar que um segundo bobo se apresentou para o lugar do primeiro, e que está muito bem vestido, mas os alabardeiros não o deixam passar. (…)

 

FAUSTO de Johann W. Goethe, trad. R. Correia, Edições Amigos do Livro (início Segunda Parte)

 


 

 

PRIMEIRO ACTO

 

LUGAR AMENO

Fausto, deitado sobre a erva florida, cansado, inquieto, procurando o

sono. Crepúsculo. O círculo dos Espíritos pairando, agitados, figuras

pequenas e graciosas.

 

ARIEL (canto, acompanhado por harpas eólicas):

Quando em chuva de flores desce

Sobre o mundo a Primavera,

Verde bênção resplandece

P'ra todos os seres da Terra,

Os pequenos elfos vêm,

Magnânimos, ajudar:

Bom ou mau, para todo o homem

Sem sorte vai seu pesar.

 

Vós, que aéreos rondais estas cabeças,

Mostrai dos elfos a nobre natureza,

Do coração a dura luta apaziguando,

Do remorso afastando a seta amarga e ardente,

De horrores passados a alma lhe purgando.

Tem quatro pausas a vigília, e é urgente

Usá-las com amor, não hesitando.

Primeiro, deitai-lhe a fronte em fresco chão,

Banhai-o no orvalho que o Letes envia;

 os membros hirtos logo despertarão,

Quando, refeito, descansa e espera o dia;

Cumpri dos elfos o dever

De à sagrada luz o trazer.

CORO (a uma, a duas e a várias vozes, em alternância, e uníssono):

Quando o ar morno se reclina

Sobre o plaino verdejante,

Doces odores e neblinas (…)

 

FAUSTO de Johann W. Goethe, trad. João Barrento, Relógio D’Água (início Segunda Parte)

publicado por C. às 13:37
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2013

Nas horas que me pertencem

 

 

 

 POETA:

Para isso terás de me trazer

Os anos do meu próprio devir,

Quando uma fonte de canções a nascer

Brotava em mim sem se extinguir,

Quando névoas me escondiam o mundo

E inda o botão milagres prometia,

Quando eu as mil flores colhia

Que enchiam o vale até ao fundo.

Não tendo nada, bastante tinha então:

A sede de verdade e o gosto da ilusão.

Dá-me de novo as paixões sem temor,

A funda e dolorosa felicidade,

Do ódio a força, o poder do amor:

Traz-me de volta a minha mocidade! (p.35)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MEFISTÓFELES:

Já que outra vez, Senhor, a nós desceste,

Para saber o que há por cá de novo,

E como sempre com bons olhos me viste,

Assim me vês agora entre o Teu povo.

Perdão, que altos discursos não sei ter,

E pela assembleia vou ser escarnecido;

Meu tom patético far-te-ia rir,

Se o riso não tivesses já esquecido.

De sóis e mundos nada sei nem direi;

Que os homens se atormentam, disso sei.

O pequeno deus do mundo não mudou,

Desde o dia primeiro mui singular ficou.

Viveria melhor, se não fosse enganado

Pelo lampejo da luz com que o haveis dotado;

Razão lhe chama, e serve-lhe afinal

Para ser mais bicho que qualquer animal.

Parece-me, perdoe-me Vossa Graça,

Uma dessas cigarras que esvoaça,

Pernilonga, armada em saltitão,

Entoando na erva sempre a mesma canção.

Se ao menos se ficasse pelo prado!

Mas quer meter o nariz em todo o lado!  (p.40)

 

FAUSTO:

Aqui estou eu: Filosofia,

Medicina e Jurisprudência,

E para meu mal até Teologia

Estudei a fundo, com paciência.

E reconheço, pobre diabo,

Que sei o mesmo, ao fim e ao cabo!

Chamam-me Mestre, Doutor, sei lá quê,

E há dez anos que o mundo me vê

Levando atrás de mim a eito

Fiéis discípulos a torto e a direito –

E afinal vejo: nosso saber é nada!

E de ficar com a alma amargurada.

Sei mais, é claro, que todos os patetas,

Mestres, doutores, escribas e padrecas;

Nem escrúpulos nem dúvidas eu temo,

E não receio nem Inferno nem demo –

Mas não me resta réstia de alegria,

Nem me iludo com vã sabedoria,

Nem creio que tenha nada a ensinar

À humanidade, que a possa salvar.

Também não tenho bens nem capitais,

Nem glórias ou honras mundanais.

Até um cão desta vida fugia!

Por isso me entreguei à magia,

Para ver se por força da mente

Tanto mistério se abre à minha frente;

Para que não tenha, com o fel que suei,

 De dizer mais aquilo que não sei;

Para conhecer os segredos que o mundo

Sustentam no seu âmago mais fundo,

Para intuir forças vivas, sementes,

E largar as palavras indigentes.

Ah, viesses tu, doce luar,

Envolver minha última dor!

Tu, que por noites adentro

Esperei a esta banca, atento:

Sobre a livralhada babilónica

Vinhas, amiga melancólica!

Ah, pudesse eu por esses cumes

Andar sob teus brandos lumes,

Pairar em grutas com seres alados,

Ao teu crepúsculo errar pelos prados,

E, livre das névoas do saber,

Em teu orvalho renascer! (pp. 49-51)

 

MEFISTÓFELES:

Singela é a verdade que te digo.

Se esse pequeno e néscio mundo, o Homem,

Geralmente por um todo se toma –

Eu sou parte da parte que a princípio tudo era,

Uma parte da treva que a luz gera,

A luz altiva que agora, em acesa luta,

À luz altiva que agora, em acesa luta,

À Noite-mãe o primado disputa;

Mas em vão, pois embora esforçada,

Ela aos corpos permanece agrilhoada.

Dos corpos irradia, beleza aos corpos dá,

Um corpo basta para travar-lhe a jornada;

E a minha esperança é que, não tarda nada,

Também ela com os corpos morrerá. (p.90)

 

FAUSTO:

Em nenhum hábito deixarei de sentir

A dor da vida estreita que levar

Sou muito velho para só querer brincar,

E muito novo para sem ânsia existir.

Que tem o mundo hoje para me oferecer?

A renúncia! Deves renunciar:

É essa a eterna ladainha

Que a todos nos ouvidos ecoa

E que, uma vida inteirinha,

Uma voz rouca sem fim apregoa.

Acordo de manhã numa agonia,

E lágrimas amargas só me traz

O tempo que decorre, e em cada dia

Nem um desejo só me satisfaz;

Até do prazer o antegozo

Me estraga com espírito invejoso,

E do sopro criador da alma activa

Com mil esgares hostis também me priva.

E depois, quando a noite nos envolve

E eu no leito caio, angustiado,

Também então a inquietação revolve

Os sonhos que me deixam aterrado.

A divindade que em meu peito mora

Pode agitar-me a alma até ao fundo;

Em minhas forças manda, mas lá fora

Não tem poder sobre as rodas do mundo.

E assim a existência me é um peso.

A morte ansiada, a vida um ódio imenso. (p. 98-99)

 

FAUSTO:

Sinto que em vão acumulei em mim

Toda a riqueza do humano entendimento,

Mas quando paro e me sento, por fim,

Não jorra da minh’alma novo alento;

Nem a altura de um cabelo me elevei,

Nem do infinito mais me aproximei. (p.108)

 

INQUIETAÇÃO:

Aquele em quem eu me afundo,

De nada lhe serve o mundo;

Vive em treva permanente,

Sem aurora nem poente,

Por fora normal parece,

Dentro dele tudo escurece,

Os maiores tesouros que há,

Frio, ele os desprezará.

Cisma em sorte ou desventura,

Morre à míngua na fartura;

Coisa má ou alegria

Fica sempre p’ra outro dia;

Só no futuro a pensar,

Nunca nada há-de acabar. (p.538)

 

FAUSTO de Johann W. Goethe, trad. João Barrento, Relógio D’Água

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Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2013

Nas horas que me pertencem

PROMETEU- É aqui o meu mundo, o meu Todo!

Sinto aqui que sou eu;

Aqui todos os meus desejos incarnados

Em formas corporais.

O meu espírito mil vezes dividido

E todo inteiro nos meus queridos filhos.

 

(Entra Minerva)

 

PROMETEU- Pois ousas, ó minha deusa?

Ousas tu aproximar-te do inimigo de teu pai?

MINERVA- Honro meu pai,

E a ti amo-te, Prometeu!

PROMETEU- E tu és ao meu espírito

O que ele é a si mesmo;

Desde o princípio

Foram tuas palavras para mim a luz do céu!

Sempre como se a minh'alma a si mesma falasse,

A si se abriss

E as harmonias gémeas suas

Nela ressoassem, vindas dela.

Eis o que eram as palavras tuas.

E assim eu não era eu,

E uma divindade falava

Quando julgava falar eu;

E quando cria que falava a divindade,

Era eu que falava.

E assim contigo e comigo

Tão unido, tão íntimo,

Eterno para ti o meu amor!

MINERVA- E eu a ti presente eternamente!

PROMETEU- Como a luz doce do crepúsculo

Do sol desaparecido

Surge e sobe inundante

Além do escuro Cáucaso

E envolve a min'alma de quietude deleitosa,

Ausente mesmo a mim sempre presente,

Assim foram crescendo as minhas forças

Com cada hausto do teu ar celeste.

E que direiro

Se arrogam cobiçosos os altivos

Habitantes do Olimpo

Sobre as minhas forças?

São minhas, e meu é o uso delas.

Nem um só passo a mais

A favor do mais alto dos deuses!

Para eles? Existo eu para eles?

MINERVA-Assim o Poder pensa.

PROMETEU-Também eu, ó deusa, penso

E também sou poderoso.-

Outrora!- Não me viste muitas vezes

Em voluntária servidão

Carregar o fardo que eles

Com solene gravidade me punham sobre os ombros?

Não levei a cabo o trabalho,

Toda a tarefa, por ordem deles,

Porque supunha

Que eles viam o passado, o futuro

No presente,

E que o seu governo, a sua lei

Eram originária,

Desinteressada sabedoria?

MINERVA- Servias, para seres digno da liberdade.

PROMETEU- E por nada no mundo trocaria

Com o pássaro dos trovões,

E empunhar altivo os relâmpagos do amo

Em garras de escravo.

Que são eles? Que sou eu?

MINERVA- É injusto o teu ódio!

Aos deuses coube em sorte a duração

E poder e sabedoria e amor.

PROMETEU- Mas não têm tudo isso

Sozinhos!

Como eles, duro também.

Todos nós somos eternos!-

Do meu começo não me lembro,

A acabar não me sinto chamado, E não vejo o fim.

Sou pois eterno, porque sou!-

(...)

 

PROMETEU (Fragmento Dramático da Juventude) de Goethe, trad. Paulo Quintela, Coimbra (pp.32-35)

 

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