Segunda-feira, 15 de Abril de 2013

d' O Anjo do Desespero

POEMA ANTIGO

 

De noite atravessando o lago a nado o momento

Que te põe em causa Já não há outro

Finalmente a verdade Que tu mais não és que uma citação

De um livro que não escreveste

Podes escrever uma vida para negar isto na tua

Fita de máquina descorada O texto lê-se à transparência

(p.25)

 

 


 

 

Eu sou o anjo do desespero. Com as minhas mãos distribuo o êxtase, o adormecimento, o esquecimento, gozo e dor dos corpos. A minha fala é o silêncio, o meu canto o grito. Na sombra das minhas asas mora o terror. A minha esperança é o último sopro. A minha esperança é a primeira batalha. Eu sou a faca com que o morto abre o caixão. Eu sou aquele que há-de ser. O meu voo é a revolta, o meu céu o abismo de amanhã. (p.51)

 

O Anjo do Desespero de Heiner Müller, trad. João Barrento, Relógio D’Água

publicado por C. às 08:55
link do post | comentar | favorito
|
Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Édipo (o mito-múltiplas leituras)

COMENTÁRIO A EDIPO

 

Laio era rei em Tebas. A ele disse o deus pela boca dos

Sacerdotes que seu filho lhe passaria por cima. Laio, não disposto

A pagar o preço do nascimento que custa a vida

Arrancou do peito da mãe o novo nado, os dedos dos pés lhe

furou

Cuidando assim que lhe não passassem por cima, e coseu-os

com três voltas

Deu-o, para que no planalto aos pássaros fosse exposto

A um criado, esta carne da minha carne não crescerá para

além de mim

E afastou assim, previdentemente, o pé que o expulsou:

À fome alada não concedeu o criado a criança

A outra terra a deu para que outras mãos a salvassem

Aí cresceu o menino de alta estirpe sobre pés inchados

Ninguém caminha como eu, o seu defeito foi o seu nome, sobre

os seus                                     ,

Pés e outros seguiu seu caminho o destino, refreável

Cada passo, irrefreável o seguinte, um passo seguia o outro.

Vede o poema de Édipo, filho de Laio com Jocasta

Desconhecido de si próprio, tirano em Tebas por mérito

próprio:

Decifrou, porque a fuga lhe negava o pé aleijado, o enigma

Imposto a Tebas pela Esfinge três vezes nascida

Deu a comer à pedra o triplo animal comedor de homens

E a solução era o homem. Anos a fio depois na feliz cidade

Lavrou feliz o mensageiro da sorte a cama em que fora

plantado.

Mais longo é o tempo que a sorte, e mais longo que a

desgraça: no décimo

Ano sobre a cidade até aí feliz do desconhecido

A peste caiu. Corpos destroçando e a restante ordem.

E no círculo dos governados, com o novo enigma sustentado

Por um pé demasiado grande, estava, cercado dos gritos de morte

da cidade, o

Decifrador de enigmas, lançando no escuro as suas perguntas

como redes:

Mente o mensageiro? O seu ouvido, enviado aos sacerdotes,

boca dos deuses?

Diz o cego a verdade, apontando-o com todos os dez dedos?

Do escuro caem sobre ele as redes, nas malhas

Apanhado no próprio, rasto pelo próprio passo: Ele.

E o seu fundo é o seu clímax: deu a volta ao tempo

Fechou-o no círculo, Eu, agora e sempre, e a si próprio.

Enterra o mundo nos olhos esvaziados. Havia aqui uma

árvore?

Vive carne fora dele? Nenhuma, não há árvores, com vozes

O seu ouvido massacra-lhe os ouvidos, o chão é o seu

pensamento

Lama ou pedra que o seu pé pensa, das mãos por vezes

Nasce-lhe uma parede, o mundo uma verruga, ou é o seu

dedo que

O reproduz em cópula com o ar, até ele apagar a imagem

Com a mão. Assim, túmulo de si, vai vivendo, mastigando os

seus mortos.

Vede o seu exemplo, saído de blocos de partida sangrentos

Na liberdade do ser humano entre os dentes do ser humano

Sobre tão poucos pés, com mãos tão poucas agarrando o

espaço.

 

O Anjo do Desespero de Heiner Müller, trad. João Barrento, Relógio D’Água, pp.35-37

 
 
 
 
 
Édipo Rei de Pier Paolo Pasolini
publicado por C. às 08:55
link do post | comentar | favorito
|

.pesquisar

.arquivos

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Outubro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds