Quarta-feira, 24 de Julho de 2013

Nas horas que me pertencem

Dia após dia, depois dos cinco anos do campo, vagueei pelo tumulto das ruas a treinar dentro da minha cabeça as melhores frases para o caso de ser preso: APANHADO EM FLAGRANTE DELITO. Contra esta sentença engendrei mil desculpas e álibis. É muda a bagagem que carrego. Tão fundas e longas são estas malas de silêncio, nunca por palavras conseguirei desfazê-las. Limito-me a disfarçar a bagagem quando falo.

 

 

Tudo o que eu tenho trago comigo de Herta Müller, trad.Aires Graça, D. Quixote, p.13

publicado por C. às 13:28
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Domingo, 11 de Novembro de 2012

Nas horas que me pertencem

 
 

«Quando fomos despedidos, vimos que passávamos pior sem esta perturbação fiel do que sob a sua coacção. Porque, com ou sem emprego, éramos considerados falhados pelos que nos rodeavam, passámos a acreditar que assim era. Embora examinássemos todas as razões e as mantivéssemos, não deixávamos de nos sentir assim. Estávamos gastos, fartos dos boatos sobre a morte próxima do Ditador, exaustos dos mortos em fuga, cada vez mais próximos dos obcecados com a fuga, sem darmos conta.

O insucesso parecia-nos tão normal como o respirar. Era o que tínhamos em comum, como a confiança. E, porém, cada um acrescentava ainda, secretamente, alguma coisa de seu: a frustração pessoal. Dela decorriam uma péssima imagem de nós próprios e explosões de vaidade martirizante.

O polegar rebentado de Kurt, o maxilar partido de Georg, a lebrezita cinzenta poeira, o frasco malcheiroso de conserva na minha mala – tudo isso pertencia só a um de nós. Os outros sabiam disso.

Cada um de nós imaginava como se podia deixar para trás os amigos, pelo suicídio. E recriminava-os, sem o dizer jamais, por ter de pensar neles, por não ter avançado por causa deles. Daí que cada um de nós se tornasse dono da verdade e tivesse sempre o silêncio à mão, silencio que culpabilizava os outros, porque nós e eles vivíamos em vez de estarmos mortos.

O esforço para nos salvar assentava na paciência. Não podíamos permitir que se acabasse, ou então tinha de voltar logo a recompor-se mal se rompia»

 

A Terra das Ameixas Verdes de Herta Müller, trad. Mª Alexandra A. Lopes, Difel, p.185

 
publicado por C. às 19:51
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