Domingo, 12 de Maio de 2013

Nas horas que me pertencem

(...) Estamos insatisfeitos com a nossa posição, pensamos constantemente em mudá-la, tomamos uma decisão atrás da outra sem as levar à prática. Por fim, desistimos, e sem saber como demos uma volta! De facto, devíamos dizer: algo nos fez dar essa volta. É este o padrão do nosso agir, tanto em momentos de paixão como nas decisões longamente planeadas.(...)

 

 O homem sem qualidades (tomo II) de Robert Musil, trad. João Barrento, Dom Quixote, p.99

publicado por C. às 21:22
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Quarta-feira, 17 de Abril de 2013

da série- OS MEUS DEUSES ESTÃO NA TERRA

Robert Musil

 

SE EXISTE UM SENTIDO DE REALIDADE, TEM DE EXISTIR TAMBÉM UM SENTIDO DE POSSIBILIDADE

 

SE  QUISERMOS passar sem problemas por portas abertas, é bom não esquecer que elas têm ombreiras sólidas; este princípio, segundo o qual o velho professor sempre tinha vivido, mais não é do que uma exigência do sentido de realidade. Ora, se existe um sentido de realidade - e ninguém duvi­dará de que ele tem direito à existência -, então também tem de haver qualquer coisa a que possamos chamar o sentido de possibilidade.

Aquele que o possui, não diz, por exemplo: isto ou aquilo aconteceu, vai acontecer, tem de acontecer aqui, mas inventará: isto ou aquilo pode­ria, deveria, teria de ter acontecido aqui. E quando lhe dizem que uma coisa é como é, ele pensa: provavelmente, também poderia ser diferente. Assim, poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância àquilo que é do que àquilo que não é. Como se vê, as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso aquilo que as pessoas admiram e como lícito aquilo que elas proíbem, ou então as duas coisas como sendo indiferentes. Esses homens do possível vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos; se uma criança mostra tendências destas, acaba-se firmemente com elas, e diz-se-lhe que tais pessoas são visionários, sonhadores, fracos, gente que tudo julga saber melhor e em tudo põe defeito. Quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes também idealistas, mas é claro que com isso só se alude à sua natureza débil, incapaz compreender a realidade, ou que a evita por melancolia, uma natureza na qual a falta do sentido de realidade é um verdadeiro defeito. O possível, porém, não abarca apenas os sonhos dos neurasténicos, mas também os desígnios ainda adormecidos de Deus. Uma experiência possível ou uma verdade possível não são iguais a uma experiência real e uma verdade real menos o valor da sua realidade, mas têm, pelo menos do ponto de vista dos seus partidários, algo de muito divino, um fogo, um ímpeto, uma vontade de construir e um utopismo consciente que não teme a realidade, antes vê nela uma missão e uma invenção. Ao fim e ao cabo, a Terra não é assim tão velha, e não se pode dizer que o seu estado alguma vez tenha sido verdadeiramente interessante. Se quiser­mos então distinguir de uma maneira fácil aqueles que se guiam pelo sentido do real dos que se guiam pelo sentido do possível, basta pen­sarmos numa determinada soma de dinheiro. Por exemplo: tudo aquilo que mil marcos contêm, efectivamente, de possibilidades, está de facto neles, quer os possuamos quer não; o facto de o senhor Eu ou o senhor Tu os possuírem não lhes acrescenta nada, como nada acrescentaria a uma rosa ou a uma mulher. Mas, dizem os do sentido de realidade, um louco faz com eles um pé-de-meia, enquanto um homem prático os põe a trabalhar para si; até à beleza de uma mulher aquele que a possui acres­centa ou retira alguma coisa. É a realidade que desperta a possibilidade, e nada seria mais errado do que negar isso. E no entanto, no cômputo global ou em média, as possibilidades serão sempre as mesmas até apare­cer alguém para quem uma coisa real não é mais importante do que uma imaginária. É ele que dará às novas possibilidades o seu sentido e a sua finalidade, é ele que as desperta.

Mas um homem assim está longe de ser um caso transparente. Uma vez que as suas ideias, desde que não sejam meras fantasias ociosas, mais não são do que realidades ainda por nascer, também ele acaba por ter sentido de realidade; mas trata-se de um sentido da realidade possível, que alcança muito mais lentamente o seu objectivo do que o sentido, que a maior parte das pessoas detém, das suas reais possibilidades. É como se o primeiro quisesse a floresta, enquanto o outro quer as árvores; e floresta é uma entidade dificilmente exprimível, enquanto as árvo­res representam tantos e tantos metros cúbicos de uma determinada qualidade. Ou talvez se possa dizer isto melhor imaginando o homem com um sentido de realidade comum como sendo um peixe que quer abocanhar o anzol e não vê a linha, enquanto o homem com aquele sen­tido de realidade a que também se pode chamar sentido de possibilidade arrasta uma linha pela água sem fazer a mínima ideia sobre se ela traz isco na ponta. A esta extraordinária indiferença em relação à vida que vai morder a isca corresponde nele o perigo de fazer coisas absolutamente ditadas pelo devaneio. Um homem sem sentido prático - coisa que ele não só parece ser, mas de facto é - não merece confiança, é imprevisível nas suas relações com os outros. Cometerá actos que para ele têm um sentido totalmente diverso do que têm para os outros, mas para tudo encontrará justificação desde que possa reduzi-lo a uma ideia fora do comum. Além disso, hoje está ainda longe de ser consequente. É bem possível que um crime que cause danos a outro lhe pareça a ele apenas uma falha no sistema social, sendo por isso a responsabilidade, não do criminoso, mas da organização da sociedade. Mais difícil é dizer se ele aceita uma bofetada como uma afronta que a sociedade lhe dirige, ou se a toma por tão impessoal como a mordedura de um cão; provavelmente retribuirá primeiro a bofetada, para depois chegar à conclusão de que não o deveria ter feito. Enfim, se lhe roubarem a amante, será difícil que ele consiga hoje abstrair da realidade desse facto, compensando-o com um novo e surpreendente sentimento. Por enquanto, esta evolução está ainda em marcha e constitui, para o indivíduo isolado, tanto uma fraqueza como uma força.

E como a posse de qualidades pressupõe uma certa alegria pela sua realidade, é legítimo prever que alguém a quem falte o sentido de realidade até em relação a si próprio possa um belo dia, sem saber como, encarar-se como um homem sem qualidades.

 

O homem sem qualidades (tomo I) de Robert Musil, trad. João Barrento, Dom Quixote, pp- 41-43.

 

publicado por C. às 13:26
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