Domingo, 19 de Abril de 2015

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desiludido de todos os adjectivos, das académicas subversões, dos tremendos discursos por onde nos reconhecem génios de pouca vida, desistira dessa identidade falsificada que pressurosamente lhe atribuíram, e pensava que o eu que subverte à medida dos desejos dos outros e é pautado por um alheio querer, pode ter a vantagem da glória prematura (e afinal toda a glória é prematura) mas não o usufruto de um prazer para que talvez fomos feitos ou estados somos, prazer do incógnito, do maligno das eternidades queimadas à partida, das filosofias mortas num momento de qualquer dor absoluta, via que as histórias não chegavam a esboçar-se nos seus lábios, que eram um vago sibilar de quem ainda se não subtraíra ao prazer da crença para descansar, porque não sendo um deus nem sequer a medida imperfeita dele, nos momentos de apoquentação vinha-lhe a urgência de morder qualquer coisa que o restituísse à vizinhança dos homens, o estrume de onde brotam as palavras: terra matricial da fala

 

Os Deuses da Antevéspera de Rui Nunes, Vega

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Domingo, 20 de Janeiro de 2013

Nas horas que me pertencem

“um livro acarinha como o sossego de um atalho que nos leva ao encontro? à nossa face, passo a passo, redesenhada? Um livro é a voz que o lê? Onde se perde?” (p.13)

 

Celan Lê-lo como alguém que perdeu, letra a letra,

 as palavras mais simples. Até só haver queimaduras.

 Ou a sofreguidão de uma guerra.” (p.14)

 

Pouco a pouco a luz minou os recantos mais íntimos, destruiu hesitações e rostos, e tornou-se o que é hoje: informe. Não há um objecto em que ela se fixe. Um único pormenor. O movimento da minha cabeça a aproximar-se, já não faz aparecer um mundo escondido, mas círculos, pulsações, turbulências. De manhã, uma cor violeta, atravessa o quarto, amiba errante com os seus pseudópodes. Dantes, só havia luz porque havia objectos. Hoje, a luz é um objecto. O único. Metastásico. Vejo o que me permitia ver: a lente monstruosa e inútil:

a  mão do oleiro.

A falta do barro (p.19)

 

 

Auschwitz há nomes que atravessam a vida: começam imprecisos e vão-se adensando, vão-se tornando mais claros, até reduzirem o lugar onde surgem a uma folha em branco. Há nomes que não trazem com eles outros nomes. Cheios de mal, do mal, exercem uma censura sobre todos os sorrisos, todos os gestos, todos os inícios. Geram o vidro no íntimo de um segredo. Escrever contra eles, apesar da sua lavra, fazê-los recuar, não para que desapareçam, mas para que deixem um rasto onde não se possam esconder. Porque. Porque isso é já o esboço de um sentido, o sinal da recusa, Mesmo que se não chegue. Mesmo que nunca. “  (pp.22-23)

 

Escrita Não gostei nunca de banda desenhada nem de livros com ilustrações. Letras e palavras sempre exerceram sobre mim um fascínio. Ambíguo. Porque me faziam aparecer as coisas com uma nitidez que as imagens não tinham. E, em simultâneo, segredavam-me a sua morte. Houve um tempo em que os livros me inventavam, no sossego de um degrau de escada. Era o tempo. Um instante, na tarde. Por eles e com eles antecipei. Levaram-me a sofrer vezes sem conta uma dor inevitável. Mas nunca me levaram à alegria. Há uma morte escondida em todas as palavras como um esqueleto que resiste mais do que os lábios que as dizem, ou a mão que as escreve, ou os olhos que as lêem. Por vezes esquecemo-nos. Um dia, porém, tiramos o livro da estante, folheamo-lo, e uma palavra soletra-nos, Não a conheço: dizemos. E a morte recomeça.” (p.30)

 

“Carregamos, não vozes, não pessoas.

Não.

Carregamos esboços. Desenhos incompletos. Dores incompletas. Uma recordação. Que repete. Repete, um corpo inacabado.” (p.39)

 

“Um rapaz chegou-se a mim no museu, e perguntou-me: o que está ver? Encolhi os ombros. Os meus olhos são máquinas de subversão, fabricam alucinados que nome para o que vejo? O que vejo? O que está escondido? A morte? As cores em outras cores? Ôs traços em outros traços? Outro mundo? Outros? O outro? O outro.” (p.44)

 

Barro de Rui Nunes, Relógio d’Água


http://www.rtp.pt/play/p213/e88857/diario-camara-clara

 

 

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publicado por C. às 21:15
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Quarta-feira, 8 de Agosto de 2012

#4

 

 

 

Já há algum tempo que não me deparava com um livro que me surpreendesse, e este Cães (Relógio d’Água) de Rui Nunes fê-lo.

 

A narrativa não segue uma estrutura convencional, as personagens que vamos encontrando, as suas acções, simplesmente não parecem ter um fim. Normalmente um escritor vai desvendando esta, ou aquela personagem através de acções e estas mais não são do que o tal meio para atingir a meta, o clímax. Aqui vamos acompanhando algo intrínseco, algo que vem de dentro (do próprio ser).

 

O modo como o autor manuseia a linguagem, como a articula entre o interno e o envolvente faz com que o regresso à sua obra seja inevitável. Houve momentos em que senti que o que lia adquiria uma dimensão poética e filosófica, não era apenas um livro bem escrito.

 

Temas como a dor, a doença, a morte, a degradação, o silêncio, a solidão -no fundo a condição humana- estão presentes tendo o poder de nos lacerar, de nos oprimir, para logo depois respirarmos fundo. /a vida é assim-cair, levantar e continuar/

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publicado por C. às 12:53
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